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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Sugestões para oposição ao governo Bolsonaro








De um "marginal vermelho" (gostei do apelido dado pelo presidente na reta final da campanha eleitoral) para todos da oposição: são sugestões; se alguém se sentir à vontade agindo de forma diferente, não interprete como regras obrigatórias para como agir, apesar do tom parecer este abaixo. Enumerei para facilitar organizar as ideias.


1. Nada de apelidos, ironias, memes, gifs. Política é coisa séria e deve ser tratada assim, com a formalidade necessária, os termos técnicos envolvidos, para mostrar que não se trata de perseguição, mas possíveis erros na gestão pública. Nada de "bozo", "fascista", "coiso" será útil. Quando você adjetiva alguém, rotula alguém, imediatamente perde a atenção de quem não pensa igual a você.

2. A coisa pública funciona por documentos. Acostume-se a acompanhar os sites dos ministérios, pelo menos uma vez por semana. Use fontes primárias, portanto. Um exemplo: no primeiro dia de governo foi assinado um decreto transferindo para o Ministério da Agricultura a responsabilidade sobre demarcação de terras indígenas e outros virão nos próximos dias, pois tudo que puderem desregulamentar por decreto sem precisar do Congresso Nacional querem fazer logo. Acompanhe. Se isto ficar rotineiro, parta para a versão avançada e verifique o Diário Oficial da União, pois todos atos públicos serão publicados lá.

Foto oficial do presidente com o seu ministério

3. Apegue-se aos fatos. O isolamento de jornalistas do primeiro dia é mais importante do que o discurso inflamado de posse contra uma "bandeira vermelha" do Brasil. Sejamos menos românticos e mais objetivos na crítica. Mantenha o Dropbox, Google Drive ou OneDrive ou o que usar sempre atualizado, com datas, contexto, dos arquivos guardados. 

4. Não use fake news, mesmo que pareçam úteis ou você goste da informação. Mesmo que possam criar desconfiança em cidadãos que não estejam à oposição, na dúvida é mais seguro ficar com o poder. Logo, use fontes que tentam ser objetivas, sem vínculos com os partidos e movimentos de afinidade no campo das ideias. Se não entende bem os documentos oficiais do item "2", use a imprensa internacional, como observadores externos que ninguém acusará de vínculos com esse ou aquele partido brasileiro.

5. Esqueça as eleições. Estamos todos juntos pelo Brasil, não importa mais o que foi dito naquele período. Por mais que guarde mágoas (quem bloqueei em redes sociais, não será desbloqueado), o discurso de campanha não é a voz institucional da presidência. Zerou: a partir de agora, importa o que é feito por ministros, articulação com Congresso, mais do que falas populistas inflamadas.

6. Cuidado com a "esquerda cirandeira" e a "esquerda caviar". A primeira tem místicas bonitas, mas pouco práticas. Reunir-se para chorar e para dinâmicas de grupo pode manter grupos fragilizados. É muito mais útil reunir-se para ler juntos notícias para entender como explicá-las de modo claro e sucinto. Sobre a segunda, mantenha distância, pois quer apenas privilégios perdidos por nostalgia dos cargos ou verbas públicas que tinham nas presidências anteriores.

7. Converse com tom de voz normal e sem ofender com quem discorda de você. O tom polarizado da campanha não pode comprometer a educação política. Para aqueles que pensam diferente, lembre que acima de bolsonistas (não chame mais de bolsomínions ninguém, é apenas ofensa, agrega nada) há insatisfeitos com a gestão petista anterior, com a corrupção desenfreada, com a crise econômica. Se você ouvir, pedindo para a pessoa não ofender durante a fala, poderá ser ouvido. Acredite, tem funcionado comigo muito bem.

8. Integre-se. Reuniões periódicas em grupos que pensam de modo semelhante, eventos culturais, congressos acadêmicos serão relevantes para saber com quem já pode contar e ajudarão para a rede necessária de contatos para ajuda mútua no que possa dar errado no cotidiano político. Não me refiro a comentários em redes sociais nem grupos de whatsapp, mas estar com as pessoas à sua frente. 

9. Previna-se para passeatas e manifestações. A criminalização de movimentos sociais é uma preocupação com fundamento, afinal aliados do presidente eleito (com seu declarado apoio) tentaram votar um projeto de lei no ano passado que igualava os movimentos que discordem da Presidência a "terroristas". Ainda não sabemos de que modo uma nova edição do "Ele não", as marchas pela legalização da maconha, a Parada do Orgulho LGBT serão recebidos, mas que toda força policial será autorizada contra ocupações de terras e prédios sem função produtiva. Previna-se caso vá para estes protestos, mantendo celular carregado e com número de emergência para a OAB, para o habeas corpus de que possa necessitar vir rápido (emergência ser amigo ou família apenas vai desesperar pessoas que lhe querem bem afetivamente). Roupas discretas favorecem desde a ditadura se misturar nas ruas se tudo desandar. Vinagre ajuda com spray de pimenta. Tenha seus documentos e não grite, nunca grite, nem agrida, contra quem usar voz de autoridade com farda.

10. Nada de "quanto pior, melhor". Moramos no país. Quem não mora, tem família, amigos, então apostar em procurar falhas em tudo, nos acertos incluir um "mas não é bem assim" sempre, vai te fazer adoecer sem ver mais perspectivas. São muitas políticas públicas e é difícil errar em todas de todas as formas. Presumir que não pode elogiar práticas impede o diálogo com quem pensa diferente e mata a sua objetividade. Veja o isolamento da oposição partidária que age assim e lembre que há uma oposição já definida que se comprometeu a não agir desse modo (PDT, PPS, PCdoB estão entre os partidos).

11. Não entre em pânico. O presidente tem um STF, um Congresso Nacional, relações comerciais internacionais, a imprensa, diversas instituições a que precisa se subordinar. Boa parte do autoritarismo pode ficar apenas no discurso, sem amparo na legalidade fazendo com que baixe o tom. Lembre que ele mudou de ideia durante o governo de transição por diversas vezes, mostrando que existe alguma flexibilidade. E, acima de tudo, você não está só.

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