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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A importância do discurso de Michelle Bolsonaro na posse


A posição de primeira-dama, normalmente, era vista como algo acessório, manter a esposa do presidente ocupada com atividades assistenciais decorativas. Isso começou a mudar com Ruth Cardoso, construindo uma rede de ONGs em torno do Comunidade Solidária e mostrando que o caráter simbólico dependia da relação com o presidente da República e da própria formação. Seguiram-se em silêncio algumas sucessoras na função.


Houve uma grande diferença na campanha de Jair Bolsonaro. Michelle Bolsonaro, reconhecida por seu trabalho na comunidade surda, levou o presidente para assumir compromissos com movimentos de pessoas com deficiência. Enquanto eu assistia à posse, foi informado por um dos repórteres que ela havia exigido que a primeira fileira acompanhando o discurso ao povo fosse inteira de surdos com intérpretes de Libras.

A surpresa foi a grande quebra de protocolo realizada antes do discurso. A primeira dama proferiu um discurso em que não dependia do marido para o que iria dizer, o qual esteve por trás dela todo tempo, mas seu discurso foi proferido na Língua Brasileira dos Sinais, com tradução para a Língua Portuguesa. Se isso não te comoveu, lembre quando ela falou que os "esquecidos serão lembrados" logo após se referir à comunidade surda. 

As pessoas com deficiência têm obtido grandes conquistas legislativas (ratificação da Convenção dos seus direitos; Lei Brasileira de Inclusão; cotas são conquista dos anos 1990, entre outras normas), mas ainda faltam políticas públicas de inclusão social mais diretas, que tornem essas normas compromisso estatal. Se ficou muito abstrato: tecnologia assistiva em teatros e cinemas (a lei existe há tempos); ensino de Libras nas escolas (conquistamos o ensino em licenciaturas e ser complementar em outros cursos superiores, mas nada à educação básica); políticas de inserção no mercado de trabalho (cotas existem, mas sob o álibi empresarial de que faltaria gente qualificada em vez de oferecerem capacitações); campanhas de esclarecimento à população; combate a discriminação de todas as formas.

A primeira semana de um mandato presidencial é repleta de atos simbólicos. Talvez, mais importante do que os discursos do presidente eleito (que repetiram em grande parte o que dissera antes e dependem do que serão seus primeiros decretos em outra parte) tenha sido o ineditismo de uma primeira-dama falar, falar primeiro e falar em Libras. Se esta posse merecer entrar para a história política brasileira, que seja por isto.

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