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sábado, 13 de outubro de 2018

Sou de uma velha guarda no movimento estudantil


Estive no Encontro Regional de Estudantes de Direito, o Massayo 2018 ou XXXI encontro. É sobre essa elevada numeração que preciso falar. Fui assistir a uma mesa sobre a práxis jurídica emancipatória: usos táticos. E lá estava alguém que entrava no movimento estudantil quando eu saía, estava na mesa. Fui a dois EREDs, em Maceió e em Salvador, há mais de 20 anos. Não havia a honestidade ideológica, a responsabilidade política, que pude presenciar agora.

Antes da mesa, um arrepiante (literalmente e simbolicamente e como quiser mais) chamado musical-teatral gritando Marielle ("presente") ao final como grito de mobilização (havia paz demais para eu poder chamar de grito de guerra). Quando o ex-quase-colega de movimento estudantil falou sobre a história da democracia no Brasil, recebeu das perguntas o mesmo que os outros dois palestrantes (que insistiam em um marxismo jurídico clássico em vez dos usos táticos do tema da mesa): uma grande lição moral. As perguntas ansiavam por "o que fazer" e "como fazer". As melhores respostas, dos outros dois integrantes da mesa, eram "esperem", considerando as oficinas que ainda viriam.

Estive por lá novamente no mesmo dia para apresentar com amigos um trabalho em um GT sobre estágio e extensão em Direito. Falamos sobre a viabilidade de quebrar barreiras para estudantes levando-os para Brasília, em um projeto de extensão independente que já completa três anos. Ouvi sobre o significado da prática jurídica na vida de outros dois estudantes de um modo que preciso levar aquele texto para professores de prática. Percebi, com aquela vivência e aquela programação algo que me fez bem: sou de uma velha guarda. A autonomia, a disciplina estudando, tornam desnecessária qualquer continuidade com gestões anteriores, estive com minha memória afetiva mas, principalmente, satisfeito com aquela continuidade organizada do que meus amigos só sonhavam.

Fui do movimento estudantil por um breve período de um ano, quando tinha 18 anos de idade. Com uma equipe honesta, sabíamos de nossas limitações. Sucedíamos um grupo que lutou por uma sala e para o curso os levar a sério, queríamos integração do centro a uma federação nacional que estava, também, se estruturando. Depois, não acompanhei mais as mudanças que viriam. Era a sensação de dever cumprido com amigos sucedendo com confiança.

Há meses, fui convidado para palestrar em uma mesa sobre ensino jurídico em um seminário preliminar ao ERED. A ótima organização me surpreendeu e fiquei à vontade. Agora, fui convidado para ser moderador e depois delicadamente desconvidado. O motivo me deixou orgulhoso, para não haver hierarquia discente-discente, para que todos no GT estivessem em igualdade, sem barreiras criadas pela presença de um professor. Perfeito. Não é o evento para esse tipo de moderação com status de autoridade, por menor que fosse. Estive com os amigos apresentando um trabalho em que o fato de sermos professores era completamente irrelevante, éramos simples representantes de duas instituições privadas de ensino superior. Saí feliz.

Acompanhei no dia seguinte a rotina de plenárias e oficinas pelos stories do evento no Instagram. Estudantes lotaram plenárias sobre direitos das mulheres e sobre integração LGBT, fizeram oficinas sobre pesquisas em movimentos sociais e sobre advocacia popular, tiveram acesso a vivências sobre assessoria jurídica popular. Estudaram como mudar o mundo, não só sonharam com isso nem resmungaram sobre isso (resmungar  é especialidade da minha faixa etária)

Tanto quando estive presente como público quanto quando estive no GT e depois pelos stories a pauta era a mesma: precisamos de mais empatia para nos identificarmos com aqueles que precisam de defesa jurídica contra opressores. Encontraram diversas formas de dizer isso, todas eficientes.

Durante um feriado prolongado entre 11 e 14 de outubro, lá estavam umas centenas de estudantes preocupados em estudar o mundo real para aplicar ferramentas jurídicas e políticas contra o fascismo que pode se apresentar de acordo com expectativas que existem sobre as eleições presidenciais. Ansiosos mais do que angustiados, curiosos mais do que depressivos, presentes acima de tudo. 

Se gritavam com frequência "Ele não" (sobre um candidato a presidente que não merece ter o nome lembrado), eu só queria responder agora, vendo de longe o movimento, "Eles e elas sim". Ainda bem, o futuro está sendo bem construído com boas instâncias de resistência. Ainda falta mais um dia para que se encerre o evento e já espero apenas poder ser útil novamente.


Após a Plenária Final
(dos stories do evento no Instagram)

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