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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Notas desanimadas sobre eleições melancólicas



Sem imagens, memes, links, este é um relato à moda antiga sobre a construção de novas relações políticas no Brasil. Escrevo quando o 2o turno das eleições presidenciais ainda não se encerrou, mas com um franco favorito bem previsível. Há mais do que falar do que essa etapa.

O Congresso Nacional perdeu grande parte das suas lideranças. Mofadas pela Lava Jato ou por não terem mais diálogo com a sociedade, agora ou se aposentam ou enfrentam os tribunais sem foro privilegiado. Bons ventos para essa etapa da política brasileira, mas é preciso descobrir logo quem os substituirá. 

O mesmo Congresso teve uma imprevista renovação nas duas casas legislativas. PSOL passou a ter 10 deputados federais, a Rede Sustentabilidade ganhou senadores, o Novo tem 9 deputados federais, temos um senador gay, três deputadas estaduais trans, uma senadora tetraplégica, um deputado federal cego... a diversidade da sociedade aproxima-se dos parlamentos, que nunca foram tão femininos em sua composição. Novas temáticas surgirão a partir de 2019. É preciso se aproximar desses novos representantes para que eles dialoguem com a sociedade civil nos seus projetos de lei. 

Movimentos sociais ascendentes nos últimos anos conquistaram lugares na Câmara, com as principais lideranças do MBL tornando-se deputados. Assim, quem se dedicava a espalhar fake news agora tem imunidade parlamentar sobre o que quiser dizer e foro privilegiado quando agredir alguém, precisaremos ficar de olho neles. 

O próximo presidente da República terá grandes desafios. PT e PSL têm mesmo número de senadores e as maiores bancadas na Câmara dos Deputados. Os partidos precisarão definir novas lideranças e as pautas principais tendem a mudar. O mercado que se manteve instável (como é típico) durante o 2o Turno quer uma reforma tributária e previdenciária. Os novos parlamentares podem pressionar por uma reforma política.

Partidos que tiveram voz no 1o turno como Patriotas, Rede e PcdoB podem deixar de existir pela cláusula de barreira (Novo e PSOL, representando novas ideias à direita e à esquerda, escaparam tranquilamente) e precisaremos acompanhar para onde seus políticos irão.

Não é o fim do mundo. Militares reformados não comandariam um golpe de Estado, ainda mais porque já terão a Presidência. Haddad não faria uma revolução comunista (algo muito distante do PT apesar do imaginário popular) e tem experiência de gestão, não dependeria de Lula para governar. Apesar disso, falta razão e sobram medo e ódio nas eleições.

É preciso que quem conseguiu ler esse texto até o final sem uma vontade louca de gritar algo, colar links e memes nos comentários, ofender alguém mantenha a cabeça fria para o que virá após o 2o turno.

Atos de violência, homicídios, lesões corporais ocorreram em eleições sem debates no 2o turno, algo simbólico da dificuldade de diálogo que marca um país mais do que dividido: bipolar sem seguir necessariamente nenhum dos dois lados. 

Eleitores de Haddad eram em parte do Ciro, gostariam de ser do Amoedo, estiveram com Boulos, preferiam Lula... difícil quem realmente goste de estar votando nele sem vínculos com o PT e sem receio de Bolsonaro. Eleitores de Bolsonaro costumam responder aos meus comentários em redes sociais apenas com raiva do PT, enfraquecido moralmente pela falta de uma autocrítica após o Mensalão e a Lava Jato; não são idiotas, fascistas (apesar de haver, claro, racistas, machistas, misóginos, homofóbicos e transfóbicos com saudade da ditadura aqui e ali), mas não vêem alternativa contra o PT. Enquanto um grupo tem o discurso do desastre pela iminência de uma ditadura, o outro lado tem medo de um grupo que representa crimes. Atraso marca os dois lados e o mais certo talvez seja o Branco, Nulo ou Ausente, que infelizmente não pode ganhar uma eleição presidencial. De todo modo, metade do país (ou mais, considerando quem votou desconfiado para não eleger o outro) estará contra quem for eleito, seja quem for. 

Acompanhemos as notícias, com cabeça fria e procurando nossos representantes parlamentares. Em 4 anos, talvez analfabetos políticos estejam em menor número, gritando menos, menos desesperados e examinando, enfim, propostas em programas. Se foi possível mudar a composição do Congresso e derrubar Magnos Maltas, Romeros Jucás, é possível ter um pouco de otimismo enquanto acompanhamos as últimas semanas da Era Temer. 

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