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sábado, 13 de janeiro de 2018

O que fazer com abusadores sexuais de Hollywood

A entrega dos prêmios Golden Globe chamou a atenção pela teatralização do que ocorria há semanas em Hollywood. Como comentado no fim do ano neste blog, foi marcante no ano passado como denúncias de abusos sexuais explodiram. Um infame manifesto de mulheres artistas francesas em defesa da paquera até surgiu, como se os atos de homens expondo a genitália, tentando arrombar portas de hotéis, exigindo cenas de sexo para ver atrizes nuas, ameaçando suas carreiras se não fizessem sexo oral, além de estupros e estupros pudessem ser chamados de paquera.

Mas o que fazer com eles é uma questão relevante que se divide em duas, ambas difíceis. De um lado, como ficam como profissionais e cidadãos após as denúncias. Por outro lado, como ficam suas obras.

À primeira questão, é preciso considerar que houve denúncias por vezes de pessoas que se mantiveram anônimas ou que disseram apenas que atos impróprios ocorreram. Carreiras podem estar sendo apagadas e pessoas marcadas à moda medieval sem direito de defesa. Temos as confissões de Harvey Weinstein e Kevin Spacey, com denúncias formais com detalhes contra casos mais recentes que se mantém vagos. É desagradável lembrar em situações tão constrangedoras, sobre atos tão desumanos, mas todos têm direito de defesa e aqueles que estão alegando inocência podem não ter feito exatamente o que são acusados de ter feito. Muitas denúncias são de décadas atrás em meio a bebidas, drogas, por isso, quando alguém afirma que não lembra talvez não lembre mesmo, mas talvez sequer tenha feito. Para isto, todos nós defendemos contra ditaduras a democracia e o devido processo legal. Então, poderiam, ou mesmo deveriam, continuar trabalhando, enquanto aguardam julgamento... é algo difícil de pensar, mas tem coerência com o que queremos para uma sociedade justa.

Pensemos em suas obras, uma reflexão bem distinta mas correlata. Bem relacionada mesmo, afinal tenho visto críticos ao liberalismo lembrando que John Locke enriqueceu com o tráfico de escravos e Karl Marx teria tido um filho com a babá dos seus filhos. Até que ponto o Ad Hominem é fundamental... consideremos suas obras a partir da vida privada e daremos mais importância a revistas de fofocas como formadoras de opinião. Se quero conhecer ideias, formas de ver o mundo por meio de correntes teóricas ou de filmes, não faria diferença examinar antes a vida privada de cada um envolvido para saber se merecem ser vistas. Como fiscalizar algo assim é impensável.

Não faço ideia do mesmo modo que sei que há pessoas íntegras acima de qualquer suspeita com quem já convivi que eu não leria nada que escrevem enquanto há canalhas com bons livros. Como diria um técnico de futebol sobre a escalação de jogadores festeiros para seu time, não estamos escolhendo maridos para nossas filhas. Não estamos atrás de amigos, não precisamos admirar as pessoas, mas se houver méritos em suas obras a vida privada e a vida pública precisarão ser vistos com racionalidade, separadamente.

Talvez isso seja mais fácil em estudos teóricos, mas reconheço que vejamos caso a caso no cinema. Afinal, diretores e, principalmente, atores, levam a reações emocionais e envolvimento simpático com o rosto de alguém que possa ter feito algo terrível pode gerar tanto desconforto quanto assistir a um filme ruim. Então, que cada um neste sentido siga o que o coração mandar. Porém, em caso de conflitos de ideias, lembremos que se não formos mais tão jovens seria preciso mudar de ideia sobre o que sentimos sobre obras passadas daqueles artistas. Talvez separar as coisas seja mais prático. Não serão nossos amigos, não precisamos admirá-los como seres morais, mas neste sentido quantas seriam as pessoas que realmente conhecemos...

Fiquei incomodado com críticas a filmes em que as obras foram analisadas a partir de problemas de bastidores e não de acordo com o que eu poderia ver no filme. Do mesmo modo, pensar no que faz cada ator do elenco mistura obra de ficção e ideias para o mundo (vida pública) com práticas repugnantes na intimidade (vida privada). E se pensar em dar dinheiro a bandidos, mais cuidado ainda! Afinal, atores já foram pagos e os filmes terão a bilheteria de que precisam com ou sem você. É tão consistente quanto boicote a marcas e empresas; teriam que atingir todos seus fornecedores, empresas compradas por aquela que condenamos e, no limite, pensar para boicote em todos os produtos chineses no mundo por partirem de uma ditadura; você conseguiria?


Assim, espero que continuem afastados da indústria de cinema aqueles que praticaram atos repulsivos, que todos possam se defender dando sua versão dos fatos, sem misturar paquera com violência sexual e assistirei aos filmes que quiser admirando o que vi, não quem fez, que ídolos sempre vêem com pés de barro.

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