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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Que 2018 seja feminista


O que marcou 2017 mais do que questões de gênero, apenas o ódio, a intolerância como resposta. Foram grandes fatos mostrando que o mundo está mudando mais rapidamente nessa segunda década desse século do que em centenas de anos.


A revista Time demonstou isso quando publicou em sua sempre icônica capa de personalidade do ano as mulheres que têm denunciado práticas abusivas masculinas. O assédio sexual, a violência de gênero demonstrando poder sobre alguém simbolicamente, fisicamente, verbalmente, humilhando, ofendendo, difamando, ameaçando, estuprando não é mais tolerável.

A Time não apenas deu atenção para atrizes, produtoras de cinema, vítimas de violência em seu trabalho, mas mulheres sem a mesma visibilidade que têm conseguido fazer denúncias e todas que não encontraram como denunciar seus agressores. Se mulheres famosas, bem sucedidas, ricas, poderosas demoraram por vezes anos para conseguir denunciar, o que dizer de quem não tem as mesmas vantagens... porém o problema é bem maior. A escassez de mulheres produtoras executivas mostra que detendo poder sobre a indústria do cinema as mãos ainda são masculinas. As mulheres têm criado produtoras próprias para criar papéis femininos sem que precisem ser figurantes de homens e sem que a idade, o corpo não malhado, sejam obstáculos para a carreira. 

É positivo perceber que a Netflix, a academia de cinema que concede o Oscar, grandes estúdios não foram nada compreensivos com os agressores. Cabe reflexão, também, sobre o inúmeros depoimentos de homens que se arrependeram do silêncio quando ouviam boatos ou viam práticas condenáveis; naturalizavam a violência, hoje percebem que não precisa ser assim.

O respeito à diversidade está por todos os lados. Anitta não tem barreiras para sua carreira sendo cada vez mais militante, com um balé de gordas, deficientes, pessoas com down mostrando que há beleza na dança de todos. 

Se nesse ano Rogéria faleceu, com décadas de carreira sendo "a travesti da família brasileira", pois desde o teatro de revista divulgava seu talento sem depender do humor fácil e transfóbico, foi também nesse ano que Leandra Leal lançou um documentário sobre travestis marcantes no teatro brasileiro. Mais do que isso, surgiu uma herdeira espiritual na figura de Pablo Vittar. Se não tem a mesma voz (a propósito, na música Pop, só se fala de cantar mal quando se trata de Pablo, quando sobra gente sem esses talentos todos...) que a diva falecida, mostra presença em palco e comanda shows e videoclipes com merecido destaque. Mais do que isso, tem público sem ser uma caricatura, logo há algo mais nesse público do que intolerância.

O mundo está mudando. Desenhos animados podem ter personagens gays (Steve Universo e Hora da Aventura são ótimos exemplos) sem que pais precisem gritar desesperados sobre o que seus filhos assistem. Melhor do que o acesso a apologia ao estupro em Xvideos e afins. Falam de amor, amizade, vida, enfim, nada que famílias possam se opor com facilidade.

Livros e séries com dedo na ferida da violência contra a mulher estão em evidência. Não pretendia ler O Conto da Aia até que dois eventos chamaram minha atenção. Com base na série da Hulu (ainda não disponível no Brasil, vou ler o livro), houve um protesto de mulheres em Washington contra projetos de lei que tirariam direitos delas vestidas como as personagens do seriado, que usam aquele uniforme por perderem identidade e viverem apenas para sexo forçado para procriação com homens; além disso, um representante da extrema direita norte-americana declarou que os úteros das mulheres pertencem aos seus maridos. Assustador, mas se o livro é best seller e o movimento do sujeito é considerado criminoso, talvez o mundo esteja diferente de em outras décadas. 

Vou terminando o ano com filmes cujo destaque é feminino sem que isso seja o principal assunto de cada história. Seja na Mulher-Maravilha, na Liga da Justiça no mais recente Star Wars, em outras décadas haveria protestos contra os filmes. Hoje, a atriz que interpreta a amazona exigiu a saída do seu próximo filme de um produtor acusado de assédio sexual e foi vitoriosa. 

Estamos indo bem, mas nem tanto. Salários, oportunidades de emprego, violência doméstica são abismos terríveis. Temos mudanças legais brasileiras recentes como o feminicídio ser crime mas de pouco impacto. As questões de gênero, nas Bases Curriculares Nacionais (documento pelo qual o MEC decide o que deve e como deve ser ensinado nas escolas brasileiras), ficou para depois, em outro documento separado, por medo de enfrentar a bancada conservadora do Congresso Nacional ou por ser comandado por essas pessoas; porém, não conseguiram tirar o assunto de pauta, a pressão de organizações de professores surtiu efeito.

2018 será um ano de lutas como tantos outros em que feminista continuará parecendo um palavrão em que tantos têm que dizer "mas não sou radical" logo depois. Como diria Chimamanda Ngozi Adiche em Sejamos Todos Feministas, basta assumirmos uma postura, mostrarmos insatisfação, com toda a injustiça que assola mulheres sem relativizar isto nem dizer cinicamente que não existe mais. Basta isso, mas é tanta coisa.








Menção honrosa durante este ano à criação do grupo de estudos Gênero e Direito, no Centro Universitário CESMAC, onde tenho a felicidade de colaborar com a professora Ana Cecília na coordenação. Com reuniões quinzenais, debatemos notícias, livros e teorias, tivemos participantes com trabalhos apresentados em eventos, artigos concluídos para publicação, exibição de dois documentários, dois seminários e foi apenas o primeiro ano.

Foto da nossa última reunião do ano.

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