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sábado, 29 de abril de 2017

Sete Camundongos Cegos Tentam Explicar a Politica Brasileira

Há uma fábula chinesa muito antiga (como parece ser toda história oral chinesa...) que foi lembrada por Ilan Brenman, comentarista de livros infantis da CBN (eles têm comentaristas para tudo!) ontem, sobre a greve geral que ocorreu. Vou resumir para ir direto ao assunto.

Em uma vila, sete pequenos sábios camundongos examinavam uma estrutura muito pesada, grossa, firme no chão. Em vez de uma pata de elefante, um dos camundongos gritou "é uma coluna!". Mas o outro, mexendo na tromba disse, preocupado: "Não, cuidado, que pelo jeito como é flexível só pode ser uma cobra!". Um terceiro camundongo, examinando o marfim das presas disse "só pode ser uma espada!". Como eu não gosto de rato, vou direto ao último deles que, incomodado com a variedade de análises, deu uma volta ao redor do bicho e disse "pelas características todas que puderam constatar, só posso chegar a uma conclusão: é um elefante". 

Vamos pensar nos nossos dias um pouco. Se você preferir, pode ver fotos lindas da multidão nas ruas pela greve geral. Por outro lado, há em grandes cidades focos graves de violência e diversidade de palavras de ordem, também. Há, ainda, clara omissão de categorias querendo trabalhar a despeito da vontade de seus sindicatos. Em vez de procurar quem tem razão, é melhor procurar ver o quadro geral. 

Por que ir às ruas para protestar nessa semana? Uma Reforma Trabalhista enorme foi aprovada na Câmara dos Deputados com medidas em seu texto que alteram muito direitos dos trabalhadores assalariados, muda princípios de interpretação do Direito do Trabalho e comprometem as funções do sistema sindical brasileiro. Na mesma semana em que se divulgou que o presidente da república tem cerca de 4% de aprovação da população e semanas após delatores na Operação Lava Jato da Polícia Federal em consenso informarem que toda propina milionária recente passou pelos presidentes que já tivemos nas últimas décadas (com o atual presidente em várias reuniões para negociar uns cascalhos).

Em vez de criar meios de regulação contra irregularidades de sindicatos de fachada, tira-se por lei como se manterem (acabando com o imposto sindical) e tirando parte das suas atribuições legais (participação obrigatória em demissão coletiva, em greves e na homologação de rescisão de mais de um ano de trabalhadores). Então, sindicatos e centrais sindicais têm todos os motivos para estarem indignados.

Logo quando lembramos 100 anos da primeira greve geral no Brasil. Muito simbólico fazer outra agora. É fácil encontra na imprensa internacional quem elogie o tamanho da mobilização, envolvendo ao mesmo tempo todas as capitais e as grandes cidades brasileiras.

Então, sobram motivos para protestar. Porém, os sindicatos não se preocuparam em divulgar aos trabalhadores das categorias como funcionam a reforma trabalhista e a previdenciária, nem como estão na Lava Jato os políticos do estado. Houve convocação para greve geral e divulgação dos nomes (parecendo cartaz de Procurado de Faroeste) daqueles que votaram a favor da reforma trabalhista. Assim não se esclarece coisa alguma.

Lendo até aqui, é possível que você sinta falta de alguns aspectos, contra sindicatos, contra partidos de oposição ao presidente. Tente somar estas perspectivas para ver se cabe se mobilizar, não apenas gerar contraposição de ideias. O elefante logo sairá andando...

Quando o Direito do Trabalho, este desprotegido, pensa em greve, temos uma pausa no trabalho por impossibilidade de negociação com empregadores até que se retomem as negociações. Parar por um dia é paralisação de alerta. Significativo, mas não é exatamente greve. Juridicamente, não. Mas, politicamente seria? 

Pararam as cidades porque as centrais sindicais, com boa estratégia, pararam os meios de transporte. Seus filiados e de partidos trabalhistas de oposição ao presidente mobilizaram por cerca de um mês seus associados. Novamente, não há nada errado nisso. Porém, assim como os sindicatos, os partidos têm palavras de ordem mas um caráter didático frágil. Falam com a opinião pública tão bem quanto o presidente da república (isso não é um elogio).

Pode ser, então, politicamente, uma greve geral por ter afetado de modo amplo um dia normal de trabalho mas não por ter correspondido à massa das categorias profissionais. Juridicamente, não envolve negociações nem confronta empregadores, logo fica ainda mais difícil chamar de greve. 

Se sou contra, a favor, isso fica irrelevante. Quero que possa produzir efeitos, que tanta gente querendo mudança nas ruas não esteja por lá em vão. 

Enquanto isso, uma livraria online divulga o livro dos sete camundongos dizendo que sua importância é: "Os camundongos coloridos poderão levar o pequeno leitor a descobrir os nomes das cores e os dias da semana.".

Que cada um volte se preferir ao seu ponto de vista ou tente ampliar o horizonte. Sabe como termina a história?

"Assim são os homens: pegam uma parte, pensam que é o todo e continuam tolos"

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