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domingo, 9 de abril de 2017

Machismo e Anacronismo no Troféu Imprensa



Enquanto assistia a dois blocos do Troféu Imprensa 2017 (com "os melhores" de 2016), não apenas me perguntava por que o programa ainda existe mas como era possível ver o que aparecia.

As imagens são fáceis de achar e os discursos são muito repetidos por revistas e cadernos de jornais dedicados à TV aberta brasileira. Os próprios jurados (que votam e justificam seus votos abertamente, com a máxima pressão possível) criticaram a ausência de programas inovadores, mencionando-os, em algumas das categorias. Carlos Alberto de Nóbrega nobremente parou para elogiar a inovação do Tá No Ar no humor. Mas, a crítica antiga aos critérios estranhos de seleção do prêmio não foi o pior da noite.

Quando alguém considerar que há exagero em uma acusação de machismo, verifique se homens e mulheres em situação semelhante naquele caso foram tratados sem qualquer forma de ofensa, desprezo, violência. Partindo deste aspecto, os dois blocos que assisti são boa demonstração do quanto este programa pertence a outra época.

Quando Danilo Gentili e o elenco do The Noite foram ao palco para receber o prêmio do ano anterior como melhor programa de entrevistas, o apresentar estar solteiro foi motivo para perguntar mais de uma vez "será que ele é?", se a "menina" do elenco dava conta de tantos homens, mas o pior ainda está por vir: o dono da emissora / apresentador do programa pediu que ele não fale mais sobre política. Com uma breve piada sobre depois sobrar para o próprio Silvio, foi só isso. Lembrem do critério que pedi, homens e mulheres em iguais condições. 

Vejamos o que surge quando uma apresentadora vai ao palco. Rachel Sheherazade, instantes depois, foi chamada para receber o prêmio como melhor apresentadora de telejornal. Por ela dar opinião durante o telejornal da emissora, durante MINUTOS o apresentador lembrou que é seu patrão, ameaçou demití-la, falou para onde ela poderia ir, que ela era "paga para apenas ler o teleprompter" "com sua beleza", que era muito bonita (repetido várias vezes) e jovem (repetido mais algumas), que devia engravidar logo, perguntou se o noivo a deixava trabalhar na TV ou tinha ciúmes (atenção para as duas opções), para elencar apenas o que de imediato posso lembrar. 

Tudo isto ocorreu após Carlos Alberto de Nóbrega ir ao palco receber um prêmio de um ano anterior pelo melhor humorístico, tendo sido convidado a levar sua esposa-troféu (tratada assim pelos elogios ao corpo, à juventude e à força para a vida sexual do apresentador) ao palco. Quando o marido insistiu, reforçou, repetiu que ela trabalha, tem carreira própria como médica, "para cuidar do velho, é bom ter um filho dele logo", foi dito pelo apresentador. 

Os vídeos estão aqui, aqui e aqui, na ordem.

Dois blocos apenas. Seria preciso assistir mais para afirmar que todo o discurso do programa de falsa intimidade apenas para grosserias poderem ser ditas está muito além do prazo de validade? Não se trata de desconsiderar o peso monstruoso de Silvio Santos para a história da TV brasileira, a relevância sempre lembrada para renovação de ideias, de ambiente de trabalho inovador na TV, uma biografia única que se confunde com a própria emissora e vai além como empresário. O labelling, a rotulação de pessoas a partir de discursos específicos, condutas particulares, não é uma prática construtiva, mas a regularidade com que isto ocorre no caso e o espaço para programas, apresentadores, roteiros que perpetuam tais práticas é algo sempre desagradável. 

É um sopro de alívio perceber que entre os mais jovens nada disso se repete e que não apenas novas ideias mas respeito às mulheres na programação é possível. 

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