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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Você não precisa ser o Christian Figueiredo

Assisti ao trailer de Eu fico loko. Percebi logo que não sou o público-alvo, parece se destinar aos fãs do youtuber e adolescentes, mas pareceu bem produzido, direção ágil, participação bem humorada do biografado, talvez eu até assista quando for para a TV ou Netflix. Porém, como o machismo canalha de Passageiros, há uma mensagem inconveniente e perigosa que o trailer transmite e, como mostram críticas (clique aqui e aqui para exemplos) é o "final feliz" da história.

O "loser" (termo genérico para estudante que não é popular na escola cunhado no bullying norte-americano), como o protagonista é chamado por bom tempo no trailer e aparece no cartaz do filme, torna-se famoso e seus problemas acabam. Fica rico por ser famoso, ganha amigos por ser famoso, a menina que o ignorava é conquistada por ser famoso. 

Na cultura dos "famosinhos", não importa o que você faz desde que tenha milhares de seguidores. Não se segue alguém nesta subcultura porque tem uma mensagem a ser seguida, mas porque milhares o seguem. Ser famoso torna-se estilo de vida, profissão e destino. 

A perspectiva pós-moderna dói nas vistas quando se vê a aparência, a imagem, superexposta online, tornar-se razão para viver, acima de emprego, relacionamento, autonomia financeira ou qualquer outro objetivo a longo prazo que viria com maturidade. É uma perspectiva pautada pelo culto a valores de juventude contínua e intensa, mesmo que apenas em flashes de instagram filtrado (sobre essa rede social como parâmetro, escrevi faz um tempo, aqui).

Em algumas semanas estará nos cinemas um outro filme cujo trailer (hoje estou assim, comentando sem assistir, apenas pelos trailers...) aponta que será uma reunião de youtubers a história inteira, Internet - O Filme. Quem administra aplicativos de serviços online, quem tem canais de vídeos sobre dicas para o trabalho e para estudos, podcasts etc. não está lá, apesar do título. É uma imagem de que a internet midiática é de entretenimento por poucos minutos gritados em vídeo de pessoas da mesma idade de quem assiste, mesmo vocabulário e ansiosos por views a qualquer preço. Mais um filme para não ser assistido, ingresso está caro comparado com o conteúdo igualmente gritado e exibicionista gratuito pelo Youtube, Facebook e similares (não é à toa que fazem piada no trailer com Linkedin, rede para empregos e network profissional).

Talvez fosse uma mensagem mais produtiva (afinal, o público é em grande parte de pessoas em formação!) o que fez o seriado Glee. Assisti feliz e aprendendo músicas novas em três temporadas e ouvi músicas pelo Spotify. Nas duas primeiras temporadas, o coral da história perdeu a competição entre corais escolares. O público sentiu a dor da derrota junto, conviveu com a adaptação deles, com a autocrítica, reconhecendo que a concorrência não era maligna mas apenas mais competente, tinham ensaiado mais e fizeram uma apresentação melhor. Não ficaram famosos; com o fim da escola, foram estudar mais para se dar bem como músicos profissionais. Nada de aparecer por aparecer nem ficar famoso como sentido da vida. Maturidade. Aprendizado.

Espero que os youtubers dos dois filmes sejam mais do que fazem parecer nos cinemas. 

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