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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Iphone sem Estado, você sem Estado, mercado sem Estado...

Há um falso debate sobre Estado mínimo na (suposta) nova direita brasileira. Para rir de quem defende políticas estratégicas de intervenção do Estado na economia e na sociedade, eles costumam até dizer que Marx seria contra o iphone, que nos países comunistas smartphones nunca seriam possíveis, que na telefonia brasileira só as privatizações permitiram a telefonia móvel entre outros anacronismos de analfabetismo tecnológico e histórico cruéis.

Para não perder meu tempo discordando de cada mimimi comparando liberalismo e telefonia, vamos focar no Iphone. Tim Harford escreveu ótimo artigo para a BBC sobre as inovações tecnológicas possíveis nas comunicações a partir do Iphone. Mais importante em seu texto (que você pode ler na íntegra em Português aqui), governos foram essenciais para que a tecnologia usada no que o smartphone teve de mais inovador existisse. Como ele afirma:

A figura fundamental no desenvolvimento do iPhone não foi Steve Jobs. Foi Tio Sam. Cada uma dessas 12 tecnologias-chave foi apoiada de forma significativa pelos governos - muitas vezes pelo governo americano.
Alguns destes casos são famosos. Muitas pessoas sabem, por exemplo, que a World Wide Web deve sua existência ao trabalho do britânico Tim Berners-Lee. Ele era engenheiro de software empregado no Cern, o centro de pesquisa de física de partículas em Genebra que é financiado por governos em toda a Europa.
E a própria internet começou como Arpanet - uma rede de computadores financiada pelo Departamento de Defesa dos EUA no início dos anos 1960. O GPS, é claro, era uma tecnologia militar pura, desenvolvida durante a Guerra Fria e aberta ao uso civil apenas nos anos 1980.
(...)
O algoritmo mais comum foi desenvolvido a partir de uma percepção do grande matemático americano John Tukey. Em que Tukey estava trabalhando na época? Sim, uma aplicação militar.
Especificamente, ele estava no conselho consultivo do presidente Kennedy, em 1963, tentando descobrir como detectar quando a União Soviética estava testando armas nucleares.
No texto, você poderá encontrar mais exemplos interessantes. Se ainda quiser saber mais sobre o papel da intervenção estatal na tecnologia, verifique pelo Google quais multinacionais e empresas brasileiras instaladas por aqui têm projetos inovadores sem financiamento de bancos públicos. Os juros são mais amigáveis, o parcelamento é negociável de modo interessante...
Confira, também (a busca será bem rápida) como o sistema S (SEBRAE, SENAI etc.) tem programas fundamentais para tecnologia no Brasil. Pode fazer buscas, também, sobre a relevância da USP, do ITA, para a tecnologia brasileira e conferir se têm capital público envolvido. 
Não se trata aqui de afirmar que a presença do Estado seria sempre fundamental. De modo algum. Apenas demonstro em poucas linhas que há uma falsa separação entre tecnologia e Estado nos argumentos liberais (ou libertários como insistem hoje...). A propósito, a intervenção do Estado interessa, sim, aos empresários. 
Como bem afirmou em entrevista o jornalista Leandro Narloch, autor do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil e do Guia Politicamente Incorreto da Economia Brasileira, não interessa aos empresários o livre mercado. Querem intervenção sim, afinal é assim que podem ter barreiras para os concorrentes tendo, por exemplo, impostos mais altos para importação e a guerra fiscal entre estados (para assistir à entrevista na íntegra, clique aqui). 
Voltemos à tecnologia e livre mercado. Não é porque temos regulação estatal que nossa internet está entre as mais lentas do mundo, na 88a posição em um ranking mundial de velocidade de conexão. A regulação permite que as empresas ofereçam menos velocidade do que o que consta nos contratos, sendo contratada uma média apurada apenas por quem oferece o serviço. Assim, a escassa regulação permitiu enganar o consumidor. 
Quem ainda insiste no Estado mínimo como solução dos problemas no país não costuma explicar como funcionaria a educação, a pesquisa científica, o investimento cultural sob o livre mercado. Faltam exemplos bem sucedidos para isto. Faltam no Brasil, também, afinal a ingratidão é gigantesca quando esquecem do papel do Estado, principalmente de universidades públicas, na formação de boa parte dos seus principais defensores, isto quando não é de grande relevância em suas rendas e network o trabalho como professor universitário dessas instituições. No Direito, quero ver os neoliberais vivendo de mediação e arbitragem, sem mediação de um servidor público (o juiz). 
Mercado e Estado não são categorias isoladas seja sobre tecnologia seja sobre qualquer outro tema. Não são antagonistas nem se relacionam assim. Debater as ideias sem partir do que acontece no dia a dia na sociedade gera estes debates insossos em que jogos de retórica e trocas de ofensas são mais importantes do que saber como ser mais prósperos, superar dificuldades econômicas, melhorar a qualidade de vida da sociedade. Mas tudo isto exige estudos fora dos limites do que se quer defender, exige pensar livre, não necessariamente pensar no mercado livre. 

1 comentários:

Antonietta Marrone disse...

Ótimo artigo. Parabéns !

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