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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

2016: o ano da Pós-Verdade

Dicionários incorporaram essa palavra, "Pós-Verdade", muito usada nos debates políticos dos Estados Unidos, e causaram desconforto internacional. Se você nunca viu esta expressão, lamento, mas está usando seu significado, querendo ou não. Este foi o ano disso se propagar no nosso sentido de mundo. 

É o que ocorre quando temos muitas ideias e opiniões mas gerando poucos argumentos e reflexões. Há a imagem imediata, o boato sob forma de notícia já compartilhado antes de clicarmos no link, pouco importa se algo é verdade desde que chame atenção, desperte indignação rápida e efêmera e possa ser passado adiante tão depressa quanto já procuramos a informação isolada seguinte. 

Quem tenta se informar sobre Política no Brasil e nos Estados Unidos tem sido assombrado por isto. Lá, porque todo dia há alguma nova maldade de Donald Trump a ser esperada, aqui porque fatos políticos foram substituídos por um noticiário apressado que se confunde com as notícias divulgadas por Feicebuque a ritmo de efeito de cocaína para viciados em trabalho. Acusam Trump de ter sido beneficiado por notícias falsas divulgadas propositalmente por redes sociais; no Brasil, candidatos foram elogiados nas mesmas redes por atividades fora da política, mesmo quando tinham experiência em partidos (Freixo lembrado como professor; Dória, como empresário, Crivella como sacerdote e por aí vai). O eleitor, lá e cá, está cansado de quem sabe fazer política porque os experientes estão sob notícias de jornais difíceis de acompanhar. Confira no Porta dos Fundos:


No momento em que escrevo, páginas de delações foram vazadas ganhando grande repercussão, o presidente (que ainda é) Michel Temer tem notícias antipáticas todo dia contra seu mandato desde as pequenas coisas (como licitação de itens de luxo para o voo presidencial) até propostas de reformas. A política passou a ser analisada apenas por criminalistas e acompanhada como série diária de TV.

Em um momento em que a imagem é compartilhada sem argumentos, a arte colabora para pensar sobre o zeitgeist (Alemão deixa tudo chique, é o espírito do tempo em que vivemos), então vamos observar o que dizem boas reflexões do cinema lançado na segunda metade do ano.

Em Invasão Zumbi, belo terror coreano (sem ironia, adoro terror coreano), logo nos primeiros minutos (isso, não é spoiler), percebem em um vagão de trem infestado por zumbis que eles se deslocam vendo as presas. Então, os sobreviventes usam jornais do dia para distraí-los, deixam de confiar no que os televisores mostram para apenas se informar sobre o que se passa fora do trem pelo que os smartphones mostram. Soco no estômago com mais política em dois minutos de terror do que horas de CNN. Isso é o panorama da Pós-Verdade.

Mais um bom filme: em Capitão Fantástico (se não viu, veja para ser um ser humano melhor) um pai preocupado com a educação dos filhos isola-os para que apenas aprendam o que é essencial para serem pessoas melhores (o filme não é só isso, mas vale assim). Não é esta uma das maiores dificuldades que qualquer adulto tem hoje, o que precisamos saber diante de tudo que nos jogam de conteúdo diariamente?

É preciso tempo e silêncio para entender a realidade. Deixei de atualizar o blog por meses porque faltavam os dois fatores, tanto na vida pessoal (volta aqui amanhã que falo das novidades) quanto no mundo, especialmente no Brasil de um escândalo por dia cessando apenas com o recesso parlamentar e judiciário. Luis Eduardo Soares, nos extras do DVD do documentário Justiça, cobra a falta de silêncios típicos dos julgamentos, para que se possam analisar os fatos. Tivemos comentários quase em tempo real sobre audiências, ministros de tribunais superiores comentando os próprios julgamentos, passados, presentes e futuros. Diante disso, uma série de Netflix ruim (as boas todos já comentam) mas que rende ótima reflexão. Designated Survivor. Assista. O presidente dos Estados Unidos assume sem ser pelo voto, porque o anterior morreu junto com quase toda a linha sucessória do país. O que ele faz em todos os episódios é ouvir seus assessores mais próximos, pensar no impacto sobre a economia de cada declaração que seja feita, nomear logo alguém que filtre o que precisa ser dito para evitar pânico e construir diálogo com o parlamento. Se uma série fraca é capaz disso, é surpreendente que políticos experientes no Brasil não consigam.

Este foi um ano de tragédias diárias e de esperanças para o futuro. Para vê-las em bloco, fica a retrospectiva do Rafinha Bastos:



Grandes vitórias científicas transcendem as merdas político-criminais. Para usar um clássico eterno do cinema, no Dia em que a Terra Parou (se você for assistir ao filme com Keanu Reeves você não é de Deus) o alienígena exige encontrar com os líderes do nosso mundo. Seguem-se dúvidas sobre como falar com presidentes e ele responde: eles não se entendem e perdem muito tempo com disputas mesquinhas de poder pessoal e para seus grupos. Ele quer falar com os verdadeiros líderes, aqueles que representam ideais e investigações voltados para transformar o mundo e que se comunicam em diferentes nações. Assim como ocorrera com Contato, A Chegada e outras pérolas da ficção científica, os cientistas são estes líderes porque podem trocar ideias sem papo raivoso de boteco sobre o que é preciso ser feito para viver em um mundo melhor. É preciso lutar pela razão como capacidade de raciocinar não como sinônimo de ser dono dela.

Por estas e outras que 2016 foi um ano difícil mas não inviável. Estamos aprendendo a usar em nossas redes os portais de transparência. O povo ainda não entende como funcionam licitações mas desconfiam dos editais que são divulgados por quem confere diariamente os sites de contas públicas. Desconfiam, também, de todos que exercem o poder em qualquer instância. Têm seus líderes políticos sob investigações e se acostumam rapidamente com a rotina de ver poderosos serem presos a partir de investigações que não escolhem partido político. Têm juízes como heróis mas céticos a cada dia, faltando apenas serem cientes de que juízes (inclusive o onipresente Sérgio Moro) apenas julgam o que promotores levam a seu conhecimento, então sendo preciso elogiar o trabalho policial e do Ministério Público bem antes. Investigadores não estão sendo mortos, presos, punidos. É uma grande mudança.  

Estamos aprendendo a ser mais democráticos, debatendo política com mais opinião do que argumentos, mas antes era apenas o silêncio; agora falta o silêncio para ouvir o outro e construir argumentos (volte uns parágrafos e assista Capitão Fantástico mesmo) antes de apenas se irritar a cada dia. A irritação diária leva a anestesia. A reflexão leva a tomadas de posição. 

Ainda falta muito mas, como diria a general Organa quando ainda era a Princesa Leia, é preciso confiar no que nos traz esperança. 

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