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segunda-feira, 18 de abril de 2016

Impeachment na Câmara: por Deus, pela família e por Silvio Santos

Ontem, dia 17, das 14h até quase meia noite o Brasil acompanhou a votação do parecer do impeachment da presidente Dilma Roussef na Câmara dos Deputados. Aprovado, agora segue ao Senado onde terá nova votação nos próximos meses. É bom registrar logo as próprias reflexões sobre esse longo domingo, pode render muitas análises.

A primeira e mais óbvia é o peso do nosso patrimonialismo. Sem precisar contar um a um, é certo que mais da metade dos deputados votaram dedicando suas posições às próprias famílias, grande parte mencionando nominalmente os parentes (tivemos até deputado levando filho pequeno para votar...). A confusão entre público e privado tão evidente no país estava ali, quando não fundamentavam seus votos mas apenas falavam em parentes, ressaltando o pouco interesse pela República.

Passou quase sem ser percebido o grande número de deputados que fizeram questão de mencionar suplentes. Para muitos, a rotatividade é grande com pessoas que ocupam a suplência, portanto não foram eleitos. Não há números claros no momento, mas em muitos períodos contamos com 1/4 dos deputados sendo na verdade suplentes substituindo parlamentares sem votos suficientes para estar ali. Portanto, eleitor, não se sinta culpado pelos sujeitos que estão ali, não por todos.

A educação política teve um telecurso rico. Com um olho na TV e outro em redes sociais, brasileiros acompanhavam em tempo real charges, memes, piadas, comentários sobre seu Parlamento. Nunca antes na história desse país tantos brasileiros acompanharam nas semanas anteriores sessões da Câmara. Se a prática se repetir, com brasileiros enchendo bares e famílias se reunindo para debater política acompanhando votações, podemos ter uma democracia madura. Sonhar não custa nada...

Grande parte dos cidadãos puderam lembrar em quem votaram nas últimas eleições, revendo os deputados do próprio estado. Agora têm ideia do que pensam, dos grupos políticos de que alguns fazem parte, podem claramente discordar ou concordar com eles. Senti um sopro de representatividade real no ar. Podia ser só o ventilador enquanto assistia TV, eu sei, mas senti.

A esquerda parlamentar, infelizmente, desperdiçou uma boa oportunidade. Em vez de se distinguir da massa que dedicava seus votos a parentes e Deus, poderiam mencionar em coro motivos técnicos contra o relatório do impeachment. Em vez disso, eram declarações de amor à integridade moral da presidente (quando o discurso em busca de "gente de bem" costuma ser da direita...), ofender gravemente o presidente da Câmara e, pior, desrespeitar a própria instituição; fazendo parte como deputados gritavam que tudo ali era uma farsa, que havia ali analfabetos políticos etc. A cada vez que alguém gritava (e como gritavam!) que não haveria golpe, fechavam os olhos para a natureza democrática do evento de que faziam parte naquele momento em nome da militância do partido. A queda do PT com os escândalos e a presente péssima gestão é uma oportunidade desperdiçada para autocrítica do partido e para ascensão de esquerdas democráticas. 

Por fim, em um dia interminável e cansativo com inúmeras outras observações que poderiam ser aqui feitas, é inevitável uma menção desonrosa. Os deputados Jair Bolsonaro e Jean Wyllis, ambos do Rio de Janeiro, estiveram nos segundos mais constrangedores que vi. O primeiro, enaltecendo o presidente da Câmara poderia ter sido apenas protocolar, mas dedicou seu voto a Brilhante Ustra, reconhecido pela justiça brasileira como torturador na ditadura; seu filho (também deputado e igualmente imbecil), dedicou o voto aos militares de 64 e apontou para os colegas com dedos simulando disparos de arma de fogo. Jean Wyllis, antagonista do clã Bolsonaro no estado e no Congresso, poderia ter ficado apenas em seu discurso, raivoso e ofensivo, mas cuspiu na direção de Bolsonaro e saiu correndo entre colegas. Difícil medir o constrangimento gerado por eles. Não sou eleitor do Rio de Janeiro, mas a simpatia pelos ideais do PSOL faz com que eu deseje que o partido converse de algum modo com o deputado. Civilidade não custa tanto. Se queremos nos distinguir da direita raivosa, sectária, preconceituosa, é preciso mostrar que sabemos usar as armas da razão e da legalidade. Afinal, seria terrível ver dois deputados um revidando ao outro com cusparadas. Ambos serão lembrados nas próximas eleições por cenas vergonhosas.

Menção honrosa para Tiririca. Em cinco anos, ainda não tinha usado o microfone da Câmara. Dedicado a projetos de lei sobre artistas circenses, discreto no seu trabalho, dedicou o voto ao país e disse sua posição. Independente de qual seja ela, foi sucinto como todos poderiam ter sido. Espero ouvir discursos do parlamentar nos próximos meses (sem ironia, mesmo).

O que vem agora? Cada um puxar amigos e parentes para debater o que viu, procurar entender a complexidade do processo para além da palhaçada de "coxinhas x petralhas" e, quem sabe, passarmos o país a limpo para começar a falar sobre política novamente, quem sabe antes de 2017.

Obs.: Por que Silvio Santos no título? Porque mostrou que o país não parou para assistir à votação, permanecendo no primeiro lugar da audiência durante o domingo. Ainda sobram eleitores desinformados para resmungar que todos são ladrões que querem só dinheiro, enquanto o apresentador grita "Quem quer...?".

1 comentários:

Unknown disse...

Achei um absurdo, uma pouca vergonha

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