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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Por que a direita brasileira adora odiar Chico Buarque?

Não é de hoje que a direita brasileira pega Chico pra Cristo (e não é pelos olhos claros da imagem do Messias). O caso recente de um idiota que ofendeu o artista na saída de um bar no Rio foi apenas o episódio cara a cara, mas de longe, principalmente por redes sociais, não é nada raro. 

Li há poucos dias alguém falando que o problema seria ele ter furtado um carro na vida. Ele fez isso na adolescência e hoje tem 70 anos! Mais do que isso, arrepende-se publicamente, tendo escrito uma música sobre o assunto e posto na capa do CD a foto da sua prisão. A canção tem o sugestivo último verso "... se prepara para dar a cara à tapa".  Escancarou a parte, segundo o próprio, mais vergonhosa da sua biografia.

Enfrentou com sua arte a ditadura militar brasileira. Se alguém tiver saudades de um tempo em que governantes não tinham transparência nas contas públicas e ninguém podia fazer denúncias, então faz sentido ter raiva dele. 

Alguns, como o babaca na saída do bar, ofenderam por "defender o PT". O sujeito perguntou o que é alguém que sempre defende o PT. Chico respondeu: "Petista". Ele tem sido desde o começo do partido no país. É possível não gostar das suas ideias, sobram motivos para discordar dele e, principalmente, do seu partido político em um período de crise interna terrível, mas coerência não é pouca com décadas defendendo a mudança social em tempos de omissão da maioria da classe artística sobre o que se passa no nosso cotidiano.

Artista simpático, que é recordista brasileiro em retornos ao palco no fim de show com mais de uma hora respondendo a "mais um" (segundo o próprio, apenas porque o público não saía), que pode ser visto pedindo pra dar canja em bares na madrugada do Rio de Janeiro (vídeo abaixo), cuja vida privada é pública sem escândalos íntimos, deve incomodar por não ser tão chato quanto aqueles que não gostam dele.


Enquanto alguns ainda tentam falar mal dele dizendo que sua voz é fraca, João Gilberto, Bob Dylan têm na voz fina e quase sussurrante sinal de estilo, então deve ser chatice essa crítica, também.

Não satisfeito, podendo sossegar com direitos autorais pela vida inteira, ainda faz shows com músicas inéditas. Mas os chatos de plantão querem falar que é escandaloso ele ter usado recursos da Lei Rouanet, voltada a patrocinar eventos culturais, como se a lei tivesse sido criada para ele ou não existissem periodicamente editais. Se a arte brasileira tornou-se dependente destes recursos, não é por culpa de Chico Buarque.

Como eu dizia, Chico, não satisfeito, escreve constantemente livros. Pude ler dois deles até agora, Estorvo e Leite Derramado, que me surpreenderam pela qualidade da prosa, com cuidado na linguagem comparado às canções. Autor de peças, musicais, trilhas sonoras, a variedade da sua obra impressiona mais do que a tentativa dos seus detratores de formular argumentos.

Em vez de ficarmos felizes por contar com um artista que mantém-se ativo e coerente com décadas de carreira, prefere-se apontar com raiva por discordâncias ora pontuais ora sem nexo ora por cabeça vazia fazer pensar bobagem. Talvez, a melhor resposta seja mesmo simplesmente aquela do próprio Chico, que compartilhou em seu Facebook, após a noite do babaca que o ofendeu na rua:


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