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terça-feira, 24 de março de 2015

O público e o privado no ambiente escolar - do Campus do jornal O DIA

Há duas semanas, foi publicado um artigo meu sobre violência nas escolas no jornal O Dia, no suplemento Campus, coordenado pelo prof. Sávio de Almeida.

Segue o texto:

O PÚBLICO E O PRIVADO NO AMBIENTE ESCOLAR

As constantes notícias, denúncias, desabafos docentes sobre agressões vindas de alunos têm um caráter múltiplo que precisa ser considerado em seu conjunto, visando identificar padrões entre as diversas formas como têm sido praticadas. É necessário lembrar que, apesar de serem mais visíveis as práticas criminosas contra colegas de turma, o patrimônio da instituição e contra professores, a violência simbólica é o que sempre se faz presente. Afinal, além destas modalidades ainda ocorre o desrespeito verbal, o descumprimento proposital de obrigações curriculares, a desobediência a ordens diretas entre outras práticas que podem não estar catalogadas em leis penais mas são igualmente condenáveis.
Como padrões constantes, podemos identificar algumas características. As crianças e os adolescentes que preocupam com tais práticas têm cobertura midiática no que fazem; não se trata mais apenas de autoafirmação perante um grupo pois seu público tornou-se indeterminado por meio de mídias sociais. Além disso, desde pais, passando por sacerdotes até estudiosos da educação brasileira têm se confrontado com uma crise de autoridade das instituições tradicionais, não sendo mais reconhecidas pelos jovens.
Apesar de ser contestável examinar apenas estas duas condições (e reconhecendo que estas mesmas também podem ser contestadas), elas têm um elemento comum que se dispersa pela sociedade civil em diversos grupos: a crise do reconhecimento da divisão entre público e privado. Não há, por parte de tais jovens, a percepção em suas rotinas escolares de que aquele patrimônio também é seu, seja ele material (as bancas, as paredes, as janelas, os muros) seja imaterial (as aulas, os cadernos, murais). Muito menos conseguem ver que é seu por ser de todos.
Em casa e na comunidade, eles encontram pessoas que não zelam pela limpeza urbana, desprezam os transportes coletivos (mesmo quando costumam usá-los), ignora critérios para a escolha de representantes eleitos. Assim, a geração que tem desprezo pela coisa pública passa este sentimento para a geração seguinte.
Desta forma, as punições que a escola possa usar contra os jovens tornam-se inócuas, pois eles não reconhecem nem a autoridade dos gestores da educação nem a relevância daquele espaço para a sua formação. O não reconhecimento do espaço faz com que suas práticas privadas, sua opinião, seus hábitos sejam impostos para a turma na sala de aula e para os docentes a qualquer custo.
Se considerarmos o espaço educacional em sentido amplo, veremos o problema com nuances que fortalecem a crise já mencionada. A utilização de bibliotecas públicas, museus, mesmo praças e parques é cada vez mais limitada. Os aparelhos culturais não são muitos no estado e o estímulo pela família para o acesso, em qualquer classe social, é muito limitado. Não se vê até o fim da adolescência e o ingresso no ambiente universitário a cidade como um espaço para adquirir conhecimento. Confunde-se esta necessidade com um mítico “conhecimento das ruas”, que funde o senso comum e pequenos atos de delinquência socialmente tolerados.

Para o efetivo combate à violência escolar é preciso repensar a relação da família e da comunidade com a escola, para que o significado da instituição educacional não se perca e os jovens possam ter o ambiente educacional como uma extensão das suas próprias vidas. Se assim puderem vê-lo, verão o respeito a todos que integram o mesmo espaço como respeito a si mesmos.


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