Translate

quarta-feira, 18 de março de 2015

Duas manifestações e milhares de dúvidas

Tivemos nos últimos dias duas manifestações, ambas preocupantes. Nos dias 13 e 15, somados, mais de três milhões de pessoas foram às ruas.Na primeira delas, o foco era demonstrar apoio à Presidenta Dilma Rousseff. Na segunda, o objetivo era o contrário. A preocupação está no que os une.

A indignação, a insatisfação, a frustração, uma espécie de sentimento depressivo coletivo nos contamina na perspectiva sobre a economia e a política no país. Não é sem motivo, afinal algumas entre as maiores empresas brasileiras, todas relacionadas a infra-estrutura, estão no maior escândalo financeiro da história do país, que resultará logo no maior processo judicial e não deve levar menos que cinco anos para ser julgado. Juntar indignados nas ruas não surpreende.

O maior dos problemas é que posicionar-se contra "o que está ai" em conjunto, seja o que for, não é posicionar-se criticamente. Faltavam propostas nas manifestações e, onde apareciam, seriam preocupantes, afinal tudo que havia de propositivo seria o impeachment da Presidenta ou o retono dos militares. Ambas expressam uma visão histórica e institucional limitada de grande parte do povo brasileiro. Na primeira, não lembram da instabilidade política que a queda de um presidente resulta, não estudam casos como Vargas e Collor. Temos uma democracia instável, frágil, mas ainda jovem, com cerca de 25 anos após 20 de ditadura. Derrubar uma presidenta porque discorda dela, sem imputações de quaisquer crimes a ela, no mínimo é antidemocrático. Discordar, lutar contra, manifestar-se, isso sim é certo, mas depende de ter o que propor para que possa sobreviver após um dia de festa nas ruas. Do mesmo modo que a preguiça mental de pregar a volta dos militares ao poder, um desrespeito àqueles que morreram, foram perseguidos, presos, torturados, é procurar o que de imediato mais facilmente vem. É a mesma mente que fala "bandido bom é bandido morto" sem pensar além de frases feitas que expressem força e medo.

Em um cenário de poucas ideias e muita indignação, a história ensina o pior. No que já falei que falta de perspectiva histórica, lembremos de outros cenários. No ocaso de ideias em crises políticas e econômicas, Hitler, Berlusconi e outros déspotas chegaram ao poder. Representando algo diferente, com discurso de força e autoestima para o povo, apostando no medo das condições atuais e na violência contra todos que possam discordar, fica fácil agregar desesperados. Já temos sinais. Com as últimas eleições, temos um Congresso de legislatura mais conservadora com pautas contra a inclusão que vinha sendo crescente. A violência contra quem possa discordar, a repressão à diferença. É fácil encontrar quem tenha compartilhado em redes sociais quem empurrou, gritou contra, pessoas de camiseta vermelha durante as manifestações do dia 15. 


Pensar a favor das manifestações populares é fácil e reconhecer sua beleza coletiva não é nada difícil, são um exercício democrático válido, porém sem que sejam propositivos serão apenas recordes numéricos de ruas ocupadas à espera de uma proposta.

Vale assistir a reflexão em vídeo trazida pelo Omelete sobre estas questões:



0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...