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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Não sou Charlie, não sou macaco e em dias assim não me orgulho de ser humano

O título longo se justifica pelos últimos fatos. Se você nasceu no planeta Terra, deve saber que um atentado terrível vitimou humoristas em grande número da revista francesa Charlie Hebdo. Após isto, com os números seguintes da publicação, diversos incidentes ocorreram em países de maioria muçulmana no Oriente Médio.

Acontece que a revista tem publicado com frequência ilustrações contra o Islamismo. Não me refiro a piadas religiosas, pois não há muitas vezes mensagem alguma nas imagens. Se não transmitem uma ideia mas apenas agridem alguém, são ofensa, não humor. Quem discordar que continue machucando supondo que autores tenham algum tipo de imunidade plena quando falarem em liberdade de expressão. A liberdade de expressão pressupõe expressar alguma ideia que não seja apenas ofender alguém.

Pode parecer exagero a posição acima. Esclarecendo: entre muitos desenhos, publicaram mais de uma vez caricaturas do Profeta Maomé. É sagrado para os muçulmanos que não seja reproduzido o Profeta, cartunistas disseram logo após que não eram muçulmanos, logo para eles não seria sagrado; esqueceram que não desenhavam apenas para si mesmos, mas para um público. Se houvesse algum contexto na imagem, entraria na lista de obras que já fizeram isso no cinema, em programas de TV norte-americanos, sem qualquer represália. Para os cristãos que considerem, ainda assim, que os muçulmanos insatisfeitos (não os terroristas que mataram jornalistas) possam estar enganados, vejam a imagem abaixo:


Os balões dizem apenas "O Pai, O Filho e O Espírito Santo". Não há piada, apenas legenda, informando que se trata de uma relação a três da Santíssima Trindade cristã. Em letras pequenas, encontra-se "casamento homossexual". Provavelmente a revista visava debater a posição da Igreja Católica sobre o tema, porém a menção à igreja encontra-se muito reduzida, sendo a única intenção agredir. Não havia piada no texto da imagem, apenas preconceito religioso, ofensa a crenças de cerca de um bilhão de pessoas. 

Já abordei o tema em duas outras ocasiões nesse blog (clique aqui e aqui para ver as publicações).
Acredito que não será a última ocasião. O discurso de ódio contra toda e qualquer diferença se espalha, atingindo o humor que não pretende fazer rir com o outro, mas dele, deixando vítimas em vez de criar novos públicos, como se dizer "era uma piada" tirasse qualquer ofensa do seu contexto perverso.

Porém, logo no dia seguinte ao atentado contra escritores franceses surgiu uma campanha em redes sociais, "Je Suis Charlie", para todos que se solidarizavam contra o atentado. Sem mensagem além do lema, forte por si só, logo mostrou-se uma campanha a favor de que se possa fazer qualquer tipo de piada em qualquer contexto. Como bem ilustrou o humorista brasileiro Rafinha Bastos, desde que a piada fosse sobre quem está longe, não sobre si mesmo:


A hipocrisia tem sido tão grande que uma marcha gigantesca em Paris em solidariedade aos massacrados tinha na linha de frente dirigentes de países que defendem a regulação da imprensa e da liberdade de expressão. Não aceitariam a revista Charlie Hebdo em sua soberania, mas se solidarizam contra qualquer manifestação do Islã.

Mais dignos foram os jovens muçulmanos que aos milhares, logo nas primeiras horas após as balas terem sido disparadas criaram grandes campanhas mostrando que discordam, que a violência não faz parte de suas crenças nem é propagada por seus Imãs. Merecem mais espaço para suas vozes, é difícil encontrar imagens, vídeos, desta parte da questão.

Porém, "Eu Sou Charlie" tem analogia com outra campanha atrapalhada, no Brasil, "Somos todos Macacos". Ocorreu quando o jogador Daniel Alves foi vítima de ofensas racistas durante um jogo, por ser negro. Rapidamente, uma imagem de Neymar com uma banana correu pelas redes sociais com a legenda "Somos todos Macacos", espalhando o racismo em vez de combatê-lo. Pior foi descobrir que aqueles que espalharam sem pensar estavam sendo usados por uma campanha viral de Luciano Huck para difundir a partir daquela camisa a sua própria camisaria que, a propósito, vendia a camisa com a mensagem nos links das fotos. 

É preciso aderirmos a campanhas pensando bem no que as produziu, considerando os diversos lados, as matizes, as camadas da cebola ideológica, ou não seremos Charlie nem macacos, mas apenas idiotas úteis. 

1 comentários:

Gilbert Juliano de Sena Lúcio disse...

Texto agradável e discurso equibrado, marcas do Prof. Coutinho. Razão em meio ao pêndulo que balança entre o terrorismo e a libertinagem. De fato, a liberdade de expressão, apesar de ser muita cara às democracias, não é direito absoluto. O atentado terrorista é uma aberracão, retrocesso civilizatório em máximo grau. No entanto, a condição de vítimas desse mal nefasto não torna aceitáveis os abusos praticados pelos cartunistas no exercício da liberdade de expressão. Por fim, é sempre bom lembrar que não se mata um passarinho com um tiro de canhão. Os excessos dos meios de comunicação se freiam com responsabilidade, pela via judicial, e não com assassinatos sob a falsa legitimação religiosa. Gostei da reflexão do autor. Parabéns.

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