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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"A Onda" na política brasileira

Não é exagero. O filme "A Onda" explica muito sobre o discurso de ódio que se reproduz velozmente no país. Lidar com a defesa de direitos para todos é estar preparado para isso. Vamos examinar a partir de dois exemplos próximos. Omitirei os nomes dos envolvidos por nojo.

Um professor de História no Rio Grande do Sul foi questionado por policiais. Fotos aéreas encontraram uma suástica em sua piscina. Descobriu-se depois que seu filho se chama Adolf e que ele teve há anos uma coleção de objetos nazistas apreendida pela Polícia Federal. Logo ele voltou a estar em evidência em novos 15 minutos de (má) fama. Porém, não foi o que mais me incomodou. Em uma das reportagens, era relembrado que seus alunos do Ensino Médio, para homenageá-lo, fizeram a saudação nazista na formatura, alguns arrependidos diziam que não concordavam com ele a época, que ninguém na turma, provavelmente, concordava. Mas (eis o que me preocupa) respeitavam a firmeza com que ele defendia suas ideias, a forma como lutava por elas contra todos. Era uma forma de rebeldia para os jovens. 

Vamos ao segundo exemplo de estupidez humana? Um deputado federal afirmou que uma colega parlamentar apenas não seria estuprada por ele porque ela não merecia. Como se não bastasse, chamou no mesmo pronunciamento feito na Câmara o dia internacional dos direitos humanos de dia mundial da vagabundagem. É o mesmo deputado que um dia, quando Fernando Henrique Cardoso era Presidente da República, disse que o presidente merecia ser fuzilado e que responde por diversos processos por racismo, homofobia, o que você quiser sobre crimes de ódio e discriminação. Mas (eis mais uma vez o que me preocupa) foi o mais votado em São Paulo para o próximo ano. Mesmo se os partidos conseguirem êxito na sua cassação (alguns já fizeram requerimento neste sentido), ele terá dois meses de folga e voltará para mais quatro anos de asco. 

E o filme "A Onda"? Pode encontrá-lo em streaming pelo Netflix (este blog não é patrocinado) Um professor de História de uma escola na Alemanha (fuja da versão americana que é muito inferior) fez um experimento em que mostraria como pequenos atos no dia a dia poderiam converter alunos em nazistas. Empolgado com o rápido sucesso, ele não parou o experimento e criou uma célula neonazista sem querer. O filme afirma ter sido baseado em fatos reais, mas ele na verdade é refilmado nos nossos telejornais com certa frequência.

Quem é o eleitor dos deputados homofóbicos, racistas, elitistas, fascistas, safados, desgraçados, miseravelmente canalhas que temos? Por muitas vezes, concordam com parte do discurso de discriminação e ignoram o que consideram excesso, em nome de ter a própria canalhice representada no Congresso Nacional. Por outras vezes, pessoas que admiram a estupidez que se repete na mídia, que aparece em programas populares quase diariamente. Você pode rir porque o deputado babaca aparece gritando com travestis no Superpop, mas pense em quantos sem grandes preocupações políticas assistem a esses programas. Eles também votam e lembrarão facilmente do nome do imbecil. 

Repetição do nome, envolvimento em escândalos de opinião, mas sempre com a mesma posição firme pregando a família, disciplina, valores etéreos e, principalmente, falando com firmeza. Quando há crises políticas de grande porte como a que vivemos, em que dezenas de parlamentares em tantos partidos recebiam propina de empreiteiras como o escândalo da Petrobras tem denunciado, quando o Mensalão retirou a aura de santidade de tantos, quando não somos mais claramente representados pela maioria dos partidos e, pior, a Economia definha com um PIB que diminui, inflação que sobe, os extremistas à direita crescem na política. Vejam os ditadores sanguinários de ontem e de hoje, onde e quando surgiram.

É preciso ter não apenas um contradiscurso para responder rapidamente a estes nojentos, é preciso ocupar os mesmos espaços públicos que eles e mostrar o lado criminoso de suas falas com a mesma segurança. Se não mostrarmos em que acreditamos, o que defendemos, com a mesma força, talvez seja melhor assistir novamente a certos filmes. A omissão de hoje não é mais nas pequenas coisas pois as declarações de ódio não estão apenas em comentários de redes sociais, mas entre aqueles que nos representam.

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