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domingo, 22 de junho de 2014

Um ano das manifestações de junho de 2013

O jornal O Dia, com o caderno Campus sob a coordenação do prof. Sávio de Almeida, publicará um suplemento sobre o primeiro aniversário das manifestações de junho de 2013.

Muito tem sido dito sobre este evento, até surgiu um documentário da TV Folha, produzido durante os levantes com imagens de diversas cidades. Segue entrevista com o jornalista que o dirigiu:


De minha parte, fui convidado para escrever sobre o assunto com base no que foi discutido na 1a Roda de Conversa promovida pelo jornal com o CESMAC e que já ganharam um resumo neste blog. Agora, ficam os vídeos na íntegra:


Enfim, o texto que escrevi e estará nas próximas semanas no jornal O Dia. Depois, publicarei aqui o link para a versão eletrônica da edição.


Cerca de um milhão de brasileiros saíram às ruas em poucos dias de junho de 2013. Um ano depois, é possível observar diversas conseqüências e examinar melhor alguns mitos que foram suscitados à época.
Não foram poucos que reclamaram da suposta ausência de lideranças. Afinal, o que começara como um movimento paulistano contra o aumento de tarifas de ônibus, devido à truculência policial, tornou-se uma paralisação nacional por motivos diversos, com grupos e cidadãos individualmente juntando-se para afirmar nas ruas que estavam insatisfeitos com as nossas políticas públicas. Assim, não havia a necessidade de líderes porque as causas eram muito diversas. Mesmo assim, é preciso salientar que, desde então, as diversas mobilizações que ocorreram, contra a Copa principalmente, seguiram estratégia semelhante: não têm pessoas à frente, mas organizações. Há grupos coordenando a mobilização de pessoas, palavras de ordem, a articulação com a segurança pública, não alguém específico a quem se reportar.
Um outro mito é que “o gigante acordou”, aliado a ser um movimento de classe média. A classe média acomoda-se fácil, não faria uma paralisação de tão grande porte, faz passeatas em Maceió nos domingos, considera violenta toda mobilização que feche as rodovias por onde vai às praias no fim de semana, não teria por que sozinha se indignar tanto. Porém, por estar ela nas ruas também logo os meios de comunicação falaram que “o gigante” (seja ele o país seja a própria classe média, megalômana na sua auto-imagem) havia despertado. As ruas por onde movimentos diversos têm batalhado por um país diferente há décadas nunca adormeceram. Movimentos sem-teto, sem-terra, ambientalistas, contra violência policial, em defesa de direitos para grupos em desvantagem os mais diversos nunca tiveram o direito de dormir diante da imaturidade da democracia nas instituições brasileiras, ainda despreparadas para permitir ao povo brasileiro a participação política plena.
Era possível encontrar, também, nas semanas seguintes, quem dissesse que não era um levante popular propositivo. O povo vota, reclama, reivindica mudanças, mas quem tem a obrigação de articular novas políticas públicas são os gestores da República, não os cidadãos. É, de fato, um movimento propositivo pelo fato de dizer o que incomoda e, se fala por milhares de vozes com desabafos dissonantes então é ainda mais grave para o Estado, pois mostra que há muito o que mudar.
Estamos aprendendo o que é o cerne da democracia, o povo brasileiro está aprendendo a participar dela pressionando nossos políticos. Em vez de esperar a mudança vinda de cima, mostram que estão insatisfeitos. A tensão pré-Copa foi constante e os protestos e greves durante o Mundial de Futebol têm sido muitos. Assim, há uma herança daqueles movimentos, percebemos que temos real força quando mostramos indignação.

Por fim, para quem dizia que a mudança que queria ver seria no voto, não nas ruas, visão conservadora e anacrônica da política frente a todas as possibilidades de ação política que existem em nossos dias, as pesquisas eleitorais têm apontado cerca de um terço do eleitorado para o governo de diversos estados e para a Presidência da República ainda não tendo escolhido qualquer um entre os candidatos. Há uma grande vontade de votar diferente, de ter uma terceira via fora do que Heloísa Helena chamou de “irmãos gêmeos siameses que amam se odiar”, o bipartidarismo de PT e PSDB. Na falta de opções, construímos mostrando desencantamento e nos encantando com nosso próprio potencial transformador.

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