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sexta-feira, 2 de maio de 2014

A 1a Roda de Conversa: a Rua e a Democracia em Alagoas



Estive presente na terça-feira, dia 22 de abril, à primeira Roda de Conversa do núcleo Direito, Sociedade e Violência (NDSV) do CESMAC, onde ensino e do qual faço parte. As rodas de conversa, coordenadas pelo prof. Sávio de Almeida, funcionam assim: dentro de um tema comum, pesquisadores e representantes de entidades da sociedade civil convidados debaterão com intervenções individuais de três minutos a cada rodada.

Foram 26 intervenções em três rodadas, que duraram ao todo duas horas e meia, nas instalações da Reitoria da faculdade. A reunião foi gravada e será editada para integrar o caderno Campus, do Jornal O Dia.

Em destaque, Elaine Pimentel e Fábio Guedes
Nas próximas reuniões, partiremos do Caso Capela para analisar o campo alagoano. Afinal, a cidade de Capela tem sofrido um grave esvaziamento de seu espaço com o fechamento da usina local.

Estiveram presentes, entre outros, Alessandra Macchioni (que dividiu a coordenação das inscrições e da pauta da noite), Mário Agra (dirigente do PSOL), Carlos Lima (em nome da Comissão Pastoral da Terra), representantes da Polícia Militar que palestraram no seminário que meses antes o prof. Sávio organizou pelo NDSV, a juíza Fátima Pirauá, o advogado, constituinte, José Costa, Vanessa Vassalo (Bicicletada), Fábio Guedes (prof. De Economia da UFAL), Elaine Pimentel (pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência em Alagoas – NEVIAL), Luanoha (jornal O Dia), entre tantos outros.
Não farei um levantamento de tudo que foi dito. Isto o jornal vai fazer bem melhor do que eu poderia. Mesmo assim, algumas anotações são pertinentes de acordo com o tema. Os trabalhos começaram com um depoimento do jornalista Anivaldo Miranda. Após toda uma construção no contexto da mundialização do capital, algumas das suas palavras guiaram as discussões seguintes. Ele disse que vivemos em uma ditadura fiscal no Brasil. Afinal, arrecadam-se 37% do PIB mas investem-se apenas 7%. Mais tarde, Fábio Guedes observaria que pouco mais do que 7% estariam livres para investimento, já que mais da metade do orçamento paga juros de dívidas públicas.

Sobre as ruas, Anivaldo disse que as manifestações de junho de 2014 foram simbólicas da relação entre a hipermodernidade das manifestações (com ágil utilização de mídias diversas e descentralização das demandas) e anacronismo estatal (com métodos repressivos antiquados e despreparado para lidar com a mudança que está vindo).

Fábio Guedes, sobre isto, lembrou Hegel: o Estado é expressão da sociedade moderna organizada.
Carlos Lima disse que o que acontecera não foi o povo na rua pela primeira vez, porque há muitas outras ruas invisíveis por todos os lados, com movimentos diversos que ninguém se preocupa em ver.
Em destaque, comandante Joyce

Perguntas centrais para a discussão:
Qual o significado do movimento de junho de 2013?
Houve espontaneidade nos movimentos de rua?
Há direita nos movimentos?
Alagoas tem movimento de rua?

Não houve muito rigor nas respostas para que seguissem as perguntas, mas sim as impressões particulares de cada debatedor ou grupo que ele representava.

Carlos Lima: nas ruas invisíveis, os filhos da pobreza são assassinados todo dia e seus pais ocupam as ruas da classe média, queimam pneus para interromper as vias e são chamados de vândalos.

Joyce (PM): lembrou turistas e vagabundos em Bauman, devido às caronas que surgiram durante as manifestações e que este seria o papel tardio da classe média e dos partidos políticos frente ao que acontecera. Esteve nas manifestações de Maceió, mas sentindo-se manifestante também pois sentia-se representada por quem ali estava. 

Com as dúvidas levantadas sobre as manifestações, foi mencionado que haveria um grande papel para a classe média. A classe média, mencionei, é tão prepotente nessas horas que, estando os pobres nas ruas há tantos anos, quando a classe média finalmente desperta para o que há no espaço público afirma que "o gigante acordou" como se nada acontecesse antes. Em Maceió, a classe média apenas faz protestos se forem na praia e nos finais de semana. Parece piada pronta. 

Também foi dito que haveria falta de lideranças. É curioso, pois estavam presentes líderes de movimentos sociais na própria reunião, mas o pensamento conservador vê apenas o que quer ver. Então, precisei lembrar que aquelas pessoas são reais e que não mais sujeitos individuais são toda liderança, mas sujeitos coletivos. Movimentos falavam, não pessoas. 

Como sempre tem sido adequado, lembrei na ocasião com a chancela da coordenação do evento que, como bem afirma Boaventura de Sousa Santos, vivemos tempos de perguntas fortes e respostas débeis. Assim também, foi um encontro voltado mais a levantar dúvidas e acender em cada participante novas reflexões, mais do que para resolver questões que, na realidade, ainda estão em construção.


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