Translate

quinta-feira, 6 de março de 2014

Quem pode definir quem nós somos?

Um amigo, quando nasceu sua filha, escreveu comovido e comovente no Feicebuque que, quando nasceu, os médicos disseram para seus pais que ele não viveria até os 10 anos de idade, pela insuficiência de cálcio em seu corpo. Cirurgias, tratamentos experimentais, alto risco, e por volta dos 40 está casado e com uma filha saudável com poucos meses de vida. O que o definiria?


Os antigos gregos (e sempre é prazeroso começar por eles) tinham na arte, sempre, alguma figura voltada ao destino. As histórias começavam pelo fim, afinal tudo seria definitivo, nada seria mutável, bastaria saber como todos seguiriam para seu final. Quando nos definimos, agimos assim, dando um fim a nós mesmos, encerrando como podemos ser compreendidos.

É curioso que usemos duas palavras tão distintas como se fossem sinônimos: definir e conceber. Dar conceitos vem de dar origem, conceber, logo é apenas um ponto de partida. Definir é algo que encerra, por isso tudo chamado de definitivo visa concluir discussões. Na vida, enquanto ela houver, não há sentido em definições.

Vejam Lizzie, abaixo:






Engana-se quem diz que ela seja uma grande lição de vida por ser feia (não vamos fingir que isso não está presente), magérrima, com visão monocular, dentuça, enfim... eis o erro, já vir apressadamente com um "enfim" quando há toda uma luta por sentido na vida em jogo. Não há "enfins" facilmente nessas horas. Uma síndrome que tem apenas duas pessoas no mundo mas ela diz "não sou essa síndrome e não deixo que me definam por ela". 

Voltamos aos gregos? Aristóteles tratava nosso trabalho como nossa arte, é o que dá sentido à nossa convivência na sociedade, mostra, por meio do que nos ocupa, o que nos dá sentido. Meu amigo é advogado, professor, pai, marido, péssimo contador de piadas, ou alguém poderia pegar um diagnóstico clínico e tratá-lo como se ele estivesse sempre com os exames na sua mão. Soaria ridículo? Lembre de Lizzie, como seria bobo esquecer que ela se motivou a ser palestrante motivacional, isso sim é mais interessante do que alguém jogar com seu destino diante de seus pais, dizendo como seria seu futuro, quando a graça do futuro, a única graça, é que ainda se encontra incerto, desconhecido, pronto apenas para ser preparado diante do acaso e de esforços. 

Então, vamos tentar fazer um passo a passo de como nos definir: o nome, as atividades, quem nos dá sentido, e fica mais claro nosso ponto de partida conceitual. Teremos limitações, tentarão usar rótulos, mas os famosos estigmas apenas nos marcam se nós tomarmos como palavras-chaves aquilo que nos diminui. 

É sempre melhor ter em mente que diante de cada "doente" há na verdade "alguém com uma doença"; não somos os nossos fardos, mas nossas esperanças que nos movem, não pelo sonho babaca de mudar só porque acredita que vai mudar, mas por ser o que dá ação, nos move, e isso dá sentido a quem cada um pode ser. Como dizia Humberto Gessinger, somos o que podemos ser e os sonhos que podemos ter. Mas vamos insistir na frase dele: quem determina os sonhos que podemos ter?

Por isso enxergar em alguém com quaisquer dificuldades físicas uma lição de vida por estar vivo é, no mínimo, ridículo. Afinal, vivos estamos todos e todos morreremos. Há todo um universo de possibilidades para aquela pessoa apresentar que supera a barreira que podemos ver, basta ter oportunidade para ficar diante de quem quer conversar. E deixar que o futuro nos defina, que o presente ainda está aberto a novos caminhos conceituais, assim como o passado que pode mudar de interpretação dependendo de como possamos ver nossas lembranças. Então, se podemos mudar como nos vemos por que os outros teriam que nos ver sempre do mesmo modo, a partir do que nos atrapalha?

Esse modo de ver as coisas serve para deficiências e para quaisquer outras barreiras que costumam virar rótulos. Há semanas, o Brasil aplaudia um beijo gay no fim de uma novela. Alguns militantes pela diversidade sexual foram mais prudentes em redes sociais, dizendo que não haveria grandes vitórias enquanto não fosse apenas um beijo, sem precisar ser dito que era gay. Enquanto houver o rótulo definindo, encerrando, esgotando todo um relacionamento à característica de ser com o mesmo ou com outro gênero, estaremos reforçando limites em vez de ultrapassá-los. Enquanto a narrativa da novela toda tiver que parar para dar close no beijo como se fosse algo pornográfico, para chocar, em vez de apenas dois homens se despedindo para um deles ir ao trabalho (como o texto da cena parecia mostrar, mas faltou a mesma sensibilidade a quem a dirigia), ainda teremos muito com o que lidar nesse mundo.

Assim, este não é um texto definitivo nem com conclusões que o façam merecido de ter sido lido. É, lamento, aberto e inconcluso, apenas para simbolizar que assim devemos lembrar que deve ser vista a vida.

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...