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domingo, 9 de fevereiro de 2014

"OS PIRATA" de Raquel Sheherazade

O ódio escapista chama a atenção todos os dias. Repórteres e âncoras de telejornais espalham esta praga a cada vez que abrem a boca diante de uma câmera. Vamos lidar com o caso mais recente, que já terá sido esquecido nos próximos dias, mais uma pegadinha da Raquel Sheherazade com participação especial do querido (sem ironia, mas lamentando por onde vai) PSOL. 

Sem vídeos nem fotos para não dar mais evidência para quem não a merece, a âncora do telejornal do SBT (sim, lá às vezes alguém fala de notícias) defendeu que um rapaz que fora acorrentado pelo pescoço a um poste à noite e espancado no processo deveria ser inspiração para mais gente agir contra "os bandidinhos", com adjetivos ofensivos a quem discordasse. 

Conversa de boteco em horário nobre, nada mais. Ficar gritando, como ela faz toda semana, contra entidades etéreas parece gesto de coragem, mas é vazio, muito vazio. Não há reflexão alguma sobre aqueles que, imobilizando um suspeito de pequenos furtos, poderiam tê-lo deixado em uma delegacia, mas preferiram quase matá-lo sob o desprezo de quem passava pela rua, que mal se importava com a cena. Em vez de refletir, pensamentos como "a culpa é de..." sempre falando que "os direitos humanos" teriam alguma responsabilidade pelos males do mundo.

O ódio escapista é assim. Pega-se um ato desumano contra alguém mas, para não tentar entender problemas complexos de ódio real e coletivo, que envolvem a própria classe social e talvez até hábitos de parentes, é melhor criar a entidade "os bandidos", distantes e de forma humana mas sem alma, para depositar tudo que sentimos contra eles. Uma amiga dizia há uns dias que um parente, cansado de tentar entender reportagens policiais, dizia "joga toda essa bandidagem numa lixeira e queima". Ele não defende alguma forma de genocídio, apenas quer apagar da face da Terra esse tipo de preocupação. 



É estranho que supostos jornalistas comentem notícias fazendo as pessoas não pensarem mais sobre elas, mas é isso que fazem. Porém, factoides (cortinas de fumaça com aparência de fatos) sempre surgem nessas histórias, fazendo tudo parecer com debates de verdade. A apresentadora já foi vítima de um pretenso filósofo que defendeu em seu blog que ela fosse estuprada, apenas pelas opiniões que ela defendia. Agora, o PSOL defendeu que ela seja processada por incitação ao crime. Queridos Psolistas, ela não incitou ao crime, mas à inércia, à apatia, gritando como fazia Didi Mocó com "OS PIRATA" a cada vez que Os Trapalhões tentavam entender um problema. 


 Bandido bom, moça do telejornal com cara de jornalista, não é bandido morto, é bandido julgado e condenado, porque dos cerca de 3.000 delitos no Código Penal existem punições para todos. Para quem foge de Blitz enquanto dirige bêbado, para quem baixa músicas, fotos e vídeos sem se importar com os direitos de quem os fez, para quem revende um carro sem contar seus defeitos, para quem trai pessoas amadas, para quem é incapaz de amar e bate na esposa por isso, para quem usa entorpecentes para dormir mas rejeita quem os fuma, enfim, tentar entender esse universo criminal é assumir responsabilidades pelos próprios atos. Toda forma de responsabilidade é mais um pouco de maturidade, mas isso dá trabalho. É mais fácil ter ódio de uma notícia e esquecer tudo depois.

Depois, não reclamem de novo da apatia do povo alemão diante do Holocausto nazista. O exemplo não é nada exagerado. Vamos deixando de pensar na violência estatal, coletiva, pessoal, direta, a toda forma de diferença, a toda forma de desconforto, até que não pensamos em mais nada. Neste cenário, o chamado "Direito Penal do Inimigo", de regras duras e poucas garantias de defesa, parece defensável por parecer ser sempre para "os outros", "Os Pirata" dos outros, até que a blitz toma seu carro sem usar bafômetro porque acharam que você tivesse bebido, até que alguém bate em você na rua porque tem cara de bandido, até que você vê que a TV apenas reproduz uma paisagem da qual você faz parte e que é muito, muito, muito mesmo, garoto, muito feia. Feia demais para querer compreender e se responsabilizar de algum modo. É melhor condenar pela TV quem for feio, pobre, negro, acorrentado pelo pescoço como cão largado pelos donos em um poste. Ninguém merece isso, mas todos nós merecemos ser capazes de pensar. 

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