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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Sem parentes, Rossi, Mandela: o velho se vai e o novo não chega

Foi especial o intervalo de meses para um texto próprio neste blog quase inativo. O slow writing tornou-se um álibi para escrever cada vez menos durante o ano. Perdas familiares no primeiro semestre, publicações novas no segundo, trabalho novo a todo instante, o tempo não parou e o blog foi, infelizmente, um tanto sacrificado. 

Quando voltaria, Mandela morreu. Se começava o texto fugindo do autobiográfico da perda da avó e do sobrinho canino, agora é inevitável: Mandela foi um dos primeiros contatos com a mudança social que tive, quando, segundo minha mãe, li criança Mandela: a luta é minha vida. Não entendi muito, nem teria como, mas ficava evidente que o mundo é pequeno para tanto sofrimento e que as pessoas são grandes o suficiente para lutar muito mais. Claro que processaria esta forma de ver o mundo durante anos, lentamente. As palavras, todas juntas, vieram só agora pela primeira vez. 

Quando começava anotações para escrever sobre o tema, Reginaldo Rossi morreu. Recifense como eu, de um Recife ao mesmo tempo distante e próximo por fluvial por dentro, sotaque, referências, músicas lembradas desde a infância, era como um pedaço pessoal que se ia. Mandela, também. Parentes, por meses de luto, bem mais. 

Não faz muito tempo nesse ano de muito trabalho e perdas, um garoto foi expulso de uma sala de aula porque tinha cabelo black power, que atrapalharia os coleguinhas (sim, era criança de poucos anos de vida, tem alma sebosa pra tudo no mundo...) a se concentrar nas aulas. Um jogo de futebol foi esquecido durante um jogo do campeonato nacional no país porque os torcedores dos dois times preferiam tentar se matar. Um lutador de MMA divertia-se há dois dias berrando em uma arena da cidade (onde eles pensam que são os leões, não os novos judeus) que lutou para deixar de bater nas pessoas nas ruas. Um projeto de lei tentou converter a homossexualidade em doença, com curas regulamentadas. O presidente dos USA espionou meio mundo, a polícia parou em Alagoas e hoje ainda parece que não voltará ao ofício, ufa... ódio, letargia, medo como sempre parecem palavras óbvias, incorporadas a uma banalização do mal que de endêmica já torna-se histérica.

Porém, para todo mal há o inconformismo que produz e reproduz respostas. Assim como um respondia ao Brasil que apenas o chamava de brega cantando as belezas de sua terra natal entre um gole e outro de uísque e outro respondia ao ódio geral em seu país com 40 anos de luta encarcerado, o fundamentalismo parlamentar homofóbico brasileiro tem resposta eclesial do Papa Francisco falando em amor e aceitação da diversidade desse mundo sem sentido. Tudo sem guerras santas novas. Manifestações de junho pelo país produziram black blocs, movimentos locais novos ou renovados, debates, o fim do voto secreto no Congresso. Assim como no parágrafo anterior repleto de lamúrias, este traz que dos mesmos problemas vêm-se alternativas.

Boaventura de Sousa Santos dizia em sua palestra na Bienal Internacional do Livro de Alagoas nesse ano interminável que devemos ser "otimistas trágicos". Há sentido e motivos para lutar apenas porque devem existir. O novo, já diria Hegel, às vezes não surge logo e o velho resiste a morrer. Dizia Boaventura também que a África do Sul foi o país com maior número de mobilizações no ano e que o orçamento participativo nascera em Recife; vejamos o paralelo com os óbitos recentes, a invisibilidade das lutas em suas terras não as inviabiliza. Quem delas participa, não esquece. Cada um que desde junho levanta um cartaz escrito a mão lembra do que carregou. 

2014 trará novidades para mim mas, muito melhor, trará novidades para nós, sei lá quem somos todos. A grande virtude do que está por vir é exatamente seu caráter incerto, que podemos tatear com base no que nos inspira ou no que nos traz más lembranças, no que nos faz sofrer ou sorrir. Cada um escolhe por onde preferir caminhar, mas, para terminar este texto de tantas citações antes que fique pedante ou pareça um fichamento, como diria Drummond, tudo desde que caminhemos juntos, de mãos dadas.

E feliz 2014. Apesar de tudo e exatamente por cada momento intenso.

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