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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

5 pessoas para prestar atenção em 2014

A lista poderia (talvez até devesse) ser muito maior. Evitei ações locais e artísticas, concentrando em pessoas que são ouvidas por milhões mas que não precisariam dizer o que dizem. Além disso, procurei diversificar as nacionalidades.


Papa Francisco (Argentina / Vaticano)

Seu Papado, que simbolicamente começou no Brasil, com a Jornada da Juventude em Julho, tem sido marcado por humildade, senso de humor e, mais importante, uma igreja (com "i" minúsculo sem ofensas) mais do que uma Igreja. O Papa tem reclamado de "clericalismo" daqueles que cobram questões institucionais mais burocráticas, abriu o jogo sobre a responsabilidade da Igreja sobre Pedofilia e corrupção no Banco do Vaticano; cumprimentou representantes do Candomblé e de igrejas protestantes no Brasil; fala abertamente sobre a participação de divorciados, mães solteiras e homossexuais nas atividades da igreja (agora o "i" fica mais claro: mais do que Estado-Vaticano, comunidade). Até a presente data, é Papa há menos de um ano mas já anuncia um cristianismo voltado para o século XXI: escreve no próprio Twitter, atende o próprio telefone, fala muito e ouve mais ainda. Não foi à toa o simbolismo de ser o primeiro do Hemisfério Sul e, como ele lembrou em entrevista quando por aqui esteve, foi eleito, logo há quem concorde com ele dentro do Vaticano, não podemos esquecer.

Malala Yousafzai (Paquistão)

A garota que foi baleada porque queria ler e ensinar meninas a ler em um país dedicado ao medo e à submissão feminina instituiu uma ONG após se recuperar das suas cirurgias. Com livros próprios publicados, objeto de diversos estudos e diversas campanhas em um número imenso de países, é uma grande motivação por diversas causas. Mal na adolescência, já falou na ONU sobre questões de gênero e sobre o combate ao analfabetismo e ao abandono feminino no Oriente Médio. Ela é, hoje, a principal voz em nome do chamado Orientalismo, quando Edward Sayid apontou o abismo cultural entre Ocidente e Oriente e os mitos para alimentar estas distâncias. O Fundo Malala, as suas declarações, as ONGs que ela assessora, quando crescer essa menina vai dar trabalho...
Tim Cook (Estados Unidos)

 O sucessor de Steve Jobs à frente da Apple não apenas tem conseguido manter o espaço da empresa no imaginário informático, mas surpreende politicamente. Desde seu discurso na Universidade Auburn, no dia 10, ele se comprometeu a se dedicar à aprovação do projeto de lei contra discriminação no emprego, para que nada possa ser feito contra homossexuais e transexuais em empresas norte-americanas. Enquanto seu antecessor era famoso pela inovação mas também pela truculência interna, Cook ressaltou o espaço pluralista que encontrou na Apple, que rejeita qualquer forma de discriminação. Segundo a penúltima edição da Revista Época do ano, ele se inspira no senador Robert Kennedy (de quem tem duas fotos como quadros em seu escritório), que entre outros feitos discursou contra discriminação no auge do Apartheid na África do Sul. 


Romário não parece estar em seu primeiro mandato eletivo. Ninguém diria que seria tão bem-sucedido onde, normalmente, ser bem sucedido parece vir junto com acomodação e fortuna. Ele poderia ter associado seu nome como deputado federal aos projetos da Copa do Mundo e das Olimpíadas, ambos eventos esportivos que logo ocorrerão no Brasil, mas preferiu o caminho mais difícil. Tem sido, no Congresso, uma voz solitária mas sempre muito ouvido a denunciar corrupção e má gestão nos rumos dos eventos esportivos, deixando claro que alguns estão enriquecendo em detrimento das práticas atléticas. Como se não bastasse, é uma forte liderança nacional sobre direitos de pessoas com deficiência e estará, em 2014, nos principais debates sobre o Estatuto da Pessoa com Deficiência, prestes a ser votado. Como hoje em dia parece ser fundamental, infelizmente, falar da vida privada dos outros, chamou a atenção a tentativa de difamá-lo com um suposto caso com um travesti. A sua resposta merecia servir de exemplo para tantos outros atletas que foram disastrados em posturas ora homofóbicas ora escapistas; ressaltou que gosta de mulher mas que tem naquele travesti "um amigo". Reconheceu a aproximação, o que está em plena coerência com a vida que tem optado por ter como homem público, com uma nota no Facebook que, se não diz tudo (pois também não interessa alcova de ninguém) pelo menos se responsabiliza pelo que faz.

Pepe Mojica (Uruguai)

O Uruguai tem gerado boas notícias. O país, pequeno em território e em relevância econômica mundial, tem um presidente marxista, fã do Lula (declarou que Lula deveria ser clonado e espalhado pela América Latina) e com posturas ousadas.Tanto pode ser descortês em sua franqueza (como quando se recusou a ir à posse do Papa Francisco por ser ateu) quanto assumir condutas desafiadora em sua profunda honestidade, como sua celebrada ausência de fortuna (seu fusca velho ficou famoso e tem ido com roupas rotas e sandálias para eventos oficiais). Como se não bastasse, o país está em discussão pela abertura de uma rota ao oceano para o Paraguai (o que faz do Uruguai único a se responsabilizar perante as mazelas da Guerra do Paraguai) e ter regulamentado o consumo de maconha. Não foi uma liberação geral de entorpecentes, mas o que o Brasil timidamente e sem método tenta debater, como usar com responsabilidade. Passaremos 2014 ouvindo falar das consequências de leis uruguaias, país que não tem a crise econômica que assola seus vizinhos nem o porte continental brasileiro, mas possui um candidato a estadista sem as bravatas que incomodaram em Evo Moralez e Hugo Chávez, respectivamente na Bolívia e na Venezuela.


 Causa alvoroço ouvir Boaventura. Com um canal no YouTube com atualização constante, a cada semana mais de uma vez por semana, é um nome à esquerda que publicou recentemente sobre o papel das religiões na luta por direitos humanos reconhecendo as peculiaridades do Islã, com Marilena Chauí sobre desenvolvimento pondo em discussão crescimento x desenvolvimento no contexto da América Latina, como a defesa do meio ambiente e do patrimônio cultural encontram-se em constituições pelo mundo, enfim, alguém que poderia apenas orientar estudos de doutorandos do mundo mas que viaja para encarar debates e desafios à esquerda, carente que esta se encontra de rumos para as inúmeras lutas sociais em andamento. Sem uma postura messiânica (o que foi possível constatar na Bienal do Livro de Alagoas nesse ano e pode ser percebido em suas inúmeras entrevistas, palestras etc. pelo YouTube) nem com argumentos de autoridade acadêmica, alterna reflexões teóricas com uma conexão rara entre fatos de quase todo o planeta quando fala, mostrando aos rebeldes do novo século o que é pensar segundo a globalização e as redes sociais sem argumentos fragmentos e caóticos.


Como dizia, a lista deveria ser maior. Cada um sentirá falta de nomes que não estão por aqui. Não é uma retrospectiva, para elencar nomes de destaque no ano mas que não se sabe o que deles poderia vir no próximo ano (como Anonymous, Wikileaks) nem movimentos sem propostas claras, apesar de toda a dignidade de suas lutas em mostrar o inconformismo (marchas brasileiras desde junho, Occupy, Indignados de desempregados em países europeus, Yo soy 132 no México, campanhas de estudantes chilenos por educação pública), pois gestores públicos que proponham, o povo precisa mostrar mesmo que como está já não se aguenta mais.

Não chegamos à metade da segunda década do século sem novos líderes, nossos heróis não andam mais morrendo de overdose e nossos inimigos não estão no poder com tranquilidade. Há muito o que fazer mas também não há poucos lutando para que muito seja feito.

Feliz 2014 para todos e felizes anos seguintes, construindo juntos a felicidade, não apenas momentos de alegria.

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