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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Enfrentando mitos em vez de problemas na África, Ásia, Oriente Médio e com médicos cubanos

Da esquerda, Fábio e João
Mitos são forças muito intensas entre nós. Em nosso imaginário coletivo, existem ideias que se estabilizam, como imagens permanentes, maiores do que os próprios fatos. Nos últimos dias, algumas dessas ideias foram combatidas com mais força do que a realidade. 

Rafael Vieira realizou seu sonho e lutou em duas guerras fazendo parte do Exército dos Estados Unidos (leia aqui). Queria "ajudar os inocentes que sofriam com os horrores do conflito". Foi, assim, duas vezes ao Afeganistão, onde, na primeira das duas viagens, em 2010, distribuiu sapatos, sementes, reconstruiu escolas. Na segunda missão, enfrentou a bala as milícias. 

João Compasso e Fábio Nilo se conheceram em aulas de Espanhol e decidiram ajudar crianças miseráveis africanas e asiáticas. Passaram um ano fazendo isso, em uma grande missão por países diversos dos dois continentes (leia aqui).

Precisavam ir tão longe? Rafael no BOPE brasileiro enfrentaria forças semelhantes em uma grande guerra urbana, assim como prestaria a mesma ajuda humanitária para regiões devastadas em todo o país por meio de ONGs ou mesmo do Exército brasileiro. João e Fábio poderiam fazer uma grande peregrinação pelas grandes cidades brasileiras, onde crianças pedem esmolas para trocar por pedras de crack. 

São pessoas cujas lutas são difíceis de contestar à primeira vista, pois enfrentam mitos. Na minha infância, havia uma música muito repetida em uma ridícula campanha da TV, que falava sobre a seca no Nordeste. Eu, que nunca subi em um jegue, nunca tive faca peixeira na cintura, nunca vi a seca além da janela do carro em breves viagens, não entendia a canção. O Rio Grande do Sul está com solo rachado por falta d´água há anos mas nunca ganhou trilha sonora humanitária. Enfrentamos mitos, sonhos, ideias consolidadas, não os problemas reais. 

É semelhante ao ato de desespero, creio, que leva celebridades internacionais a adotar crianças de países em conflito, como Madonna e Angelina Jolie, ou Bono a sair reclamando do que lê em notinhas de jornais e exigir providências de presidentes de países rendendo visitas diplomáticas e fotos bonitas. Quem assistir a algum seriado recente verá que perto das casas de qualquer uma dessas figuras há tragédias humanas, crianças órfãs da miséria, mas o símbolo está sendo enfrentado, não o problema.

Agora, no Brasil, fazemos isso em grande escala mais uma vez. Foi assim por anos enquanto Lula distraía a opinião pública com o discurso "Fome Zero", pois quem reclamasse de algum aspecto das políticas públicas ele diria que era uma pessoa contra seu lema, que resultou em apenas um slogan bem aproveitado. A bola da vez são os médicos cubanos.

Médicos vieram de Cuba para atender brasileiros em cidades para onde os médicos brasileiros não querem ir, em troca de um salário que os brasileiros não querem receber, para trabalhar em condições que costumam resultar em greve no país. Se a conveniência ideológica entre países incomoda, se a possível carência de especialização deles, a diferença linguística gerar algum problema, até hoje não encontrei nas notícias protestos de médicos brasileiros que digam "iremos no lugar deles".

Como bem disse pelo Twitter o senador Cristovam Buarque, a população não quer saber de onde vem o médico, quer que ele esteja perto. Tão perto quanto os problemas que exigem solução planejada, não apenas pedidos internacionais de socorro para um país relativamente próspero receber auxílio de uma nação em graves problemas econômicos. Não estamos enfrentando o problema quando debatemos a vinda dos médicos, mas enfrentaremos quando discutirmos por que chegamos a este ponto. 

É preciso enfrentar os problemas reais com soluções com os pés no chão. O contexto para ser contra a medida para saúde pública parte de quando brotou a ideia: quando manifestações riscaram as ruas brasileiras reclamando da falência de nossas políticas públicas. Ninguém pediu médicos cubanos, mas investimentos na saúde pública. Se a solução tivesse levado alguns dias para vir, lembrando dos detalhes que gerariam desgastes políticos nas semanas seguintes, talvez ninguém estivesse reclamando. 

O Brasil recebeu professores europeus para construir suas grandes universidades, o que também ocorreu nos Estados Unidos. A vinda dos médicos cubanos está sendo vista de um lado como medida emergencial do outro como um desrespeito aos médicos brasileiros. Nenhum dos dois lados vê que não estamos construindo nada, mas apenas agindo como países devastados por guerras, pedindo ajuda humanitária para garantir assistência básica. 

Precisamos de análises estruturais, não conjunturais. O contexto do problema imediato não mostra o seu panorama, mas anestesia o olhar, domesticado para ver as coisas enquanto elas passam diante da visão, sem perceber o que gerou os problemas e as possíveis consequências a médio e longo prazo das medidas adotadas. 

Uma sociedade que enfrenta pesadelos e mitos em vez de problemas reais não precisa de políticas públicas. Precisa de terapia.

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