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sábado, 22 de junho de 2013

Manifestações em Maceió na semana nacional de protestos


Acompanhei por perto as passeatas que ocorreram em Maceió. Foram duas.

Como as duas saíram da Praça Centenário, pude acompanhar do CESMAC (estava trabalhando), por uma grade que dá acesso do estacionamento à rua perto da praça. Incrível a organização, que a praça parecia até mais limpa depois que os manifestantes passaram por lá. Enquanto lá estavam, discursos surgiam, cartazes eram levantados, na paz. A imprensa divulgava tentando não se comprometer, a polícia acompanhou sem problemas. Tudo sinal de uma cidade onde o prefeito teve a prevenção necessária. Quando tudo desandou pela teimosia da prefeitura paulistana, o prefeito de Maceió correu para anunciar que as passagens não subiriam por aqui. 

Como professor, acompanhei em uma reunião professoras rindo quando mencionei que em outra faculdade (a FAT) o site avisava que não haveria aulas "em respeito ao clamor popular". Em mais uma faculdade, professores perguntavam para quem chegava na sala onde estavam "foi pacífica? Duvido, não quebraram nada?" e só pararam quando uma professora falou "ouvi dizer que queimaram pneus...". O pior dos casos foi de alguém que se orgulhava de atribuir falta a quem dissesse que estava na manifestação. Quase nem professores haviam, com todos tendo concluído suas aulas e avaliações naquela semana, e ele se orgulhava pelo desafio solitário contra um protesto popular. Não sei o que ensinam em sala de aula, mas eu não gostaria de aprender. Todos os eventos, depoimentos docentes em redes sociais, giram em torno das manifestações da semana, procurando contribuir com responsabilidade para um debate que só se inicia. Se aqui e ali professores, por sua filiação partidária no momento sem expressão em um grande evento político, demonstram um ceticismo exagerado, tentam diminuir o impacto dos protestos porque suas bandeiras não puderam estar presentes, em geral o que encontro é colaboração intelectual.

Infelizmente, nem tudo são flores contra canhões. Há espinhos tristes. Não havia palavras de ordem no fim da marcha, em frente ao prédio onde mora o governador, só palavrões em alto-falantes (moro perto e era fácil ouvir). Jovens se dispersavam pelas ruas brincando de parar o trânsito, caminhando no meio de avenidas enfileirados enquanto carros os seguiam. Ontem, ouvi um senador na TV Senado (sim, alguém assiste aquilo) fazendo contas simples, que adaptarei para o caso de Maceió. Se eram 30.000 manifestantes e os problemas que surgiram foram causados por algumas dezenas, então, sendo menos de 0,5% não caberia nos preocuparmos tanto assim, afinal nem como margem de erro teriam relevância.

Mas não deixemos que alguns péssimos exemplos possam sujar toda a manifestação. É preciso lembrá-los que foram marchas sem líderes e, no fim, tão contra partidos quanto as demais no país. O senso de desabafo era maior do que o senso cívico. Era uma passeata "contra tudo que está aí" o que é um começo, todo desabafo pode ser um começo, mas não basta. Um dia aqueles jovens votarão e precisam ter com clareza o que fazer. Não mais erguerão cartazes, mas títulos de eleitor. Se rejeitam qualquer forma de representatividade, não estão se politizando mas demonstrando alienação. A democracia é um aprendizado que tentamos há 25 anos nos formar no país. Parece que passamos por mais uma série, quem sabe um dia nos formaremos.

Fotos de Annais Alves Rocha
Discursos fascistas, golpistas, machistas (quando rejeitavam a presidenta) destoavam do mar de cartazes que se distribuía pelas ruas da cidade. Fiquei muito feliz por ver meus alunos com cartazes, em fotos alegres em redes sociais. O hábito de defender direitos em público precisa ser construído e está sendo. Uma professora do CESMAC realizou um trabalho em sala (que tive o prazer de acompanhar quando preparavam) que consistia em uma oficina de cartazes; com aulas de Português, os alunos mostrariam hinos e cartazes como palavras de ordem. Não é porque falta educação no estado que os protestos podem ter erros gramaticais, perfeito.

O que antes se diria facilmente na cidade que seria rechaçado por balas agora pode ser feito com tranquilidade, sendo comum ver famílias protestando juntas ou indo à janela de casa, à calçada para assistir. Uma professora disse: "Nunca vi aquilo, mãe e filha segurando um cartaz juntas". Agora, creio que verá mais vezes. Quem sabe um dia como esses entraria no calendário de eventos da cidade, como a Parada do Orgulho LGBT, o Grito da Terra já conseguem estar, formalmente ou não.

O amigo Golbery relatou um momento emblemático. Enquanto os manifestantes andavam pelo Centro, um vendedor de CDs sem carga tributária nem direitos autorais reconhecidos apressou-se para disparar em alto som o verso "somos tão jovens...", trecho de uma música da Legião Urbana. Logo, todos cantavam a música juntos. Cantar o hino nacional, cantar outras canções. Eram cerca de 30 mil pessoas, algo que ninguém que ali estava pensou que um dia aconteceria na cidade.
Começo do primeiro protesto na semana. Foto minha.

Na segunda passeata, estava no carro, indo acompanhar o nascimento de Clara, filha de Marcelo e Ylana Jobim. A menina já nasceu em bom clima para tempos felizes. Era mais de um quilômetro, mais de uma hora parado no trânsito, e não se ouviam buzinas. Todos sabiam por que estávamos parados. Quem não conseguia pegar algum desvio para voltar daquele trajeto, apenas esperava. Descia do carro às vezes, mas não havia gestos duros. Por falar em carros, lembrei que estava no carro também no fim da primeira passeata da cidade e o engarrafamento era crescente. Lentamente, os carros se deslocavam porque os manifestantes liberaram uma das três faixas da Av. Fernandes Lima. Os motoristas riamos muito porque eles gritavam "Ah ah ah só passa aqui se buzinar!" e é claro que buzinei. No ônibus ao meu lado, ouvi os gritos "cadê o passe livre, motorista?" de quem brincava de não pagar passagem, forçando o debate rápido entre os outros usuários do serviço. Cartazes e bandeiras do Brasil apareciam por todo lado nos ônibus, nos carros, em motos.

Lamentável apenas que, diante de tantas cidades em que conflitos foram imensos, em Maceió, onde o único tiro de que se ouviu não foi disparado nem por manifestante (mas contra um, lamentavelmente) nem por PM, e ainda assim foi a única notícia nacional que ganhamos sobre nosso tranquilo protesto. 

Agora, é preciso pensar no que será possível fazer nos próximos dias. A cidade não terá jogos da Copa nem olímpicos para se preocupar, não tem discussão sobre passagens de ônibus mas mesmo assim mostrou-se indignada diante de tantos abusos. Lembramos que fazemos parte de um país e que os problemas em outras cidades também são nossos. Lembramos que esta é a capital mais desigual, mais injusta, mais miserável, desorganizada entre todas, segundo tantos indicadores oficiais. Mas não é a mais passiva nem barulhenta, é uma voz coletiva dissonante entre tantas, que merece respeito e que deve continuar para ser ouvida.

1 comentários:

Wanessa Oliveira disse...

quando me preparava para sair mais cedo da aula quinta, com meia dúzia de colegas, o professor (e meu orientador!) emplacou uma série de olhares irônicos seguidos de críticas desiludidas que davam total descrédito. Ao menos não chegou a cogitar nos dar falta. Quando cheguei em casa, a noite, minha timeline estava cheia de imagens de nazistas e frases sentenciando a mobilização como motins de arruaceiros opressores que não sabem o que estão fazendo. Meus melhores amigos, em conversa, disseram ter botado fé no início, mas não acreditam mais que esses atos tragam nada de positivo. Prefiro ver de outra forma, mas é difícil não ser contagiada por essa onda pessimista.

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