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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Esquerda e direita: o ódio é ambidestro

Não me refiro ao ódio entre militantes e intelectuais situados ideologicamente de um lado ou do outro. O ódio mais comum hoje é um discurso do ódio extremamente disseminado e sem um centro. Importa eliminar tudo que seja diferente, estranho, incômodo. Enquanto isso, Esquerda e Direita isolam-se.

De um lado, tem prevalecido a defesa da intervenção estatal e da ação coletiva para a transformação social contínua; do outro, a livre iniciativa e a vontade individual para a preservação de conquistas sociais. Não é muito difícil imaginar estas diretrizes em completa oposição, mas é uma divergência que pode ser expressa racionalmente. Cabe em debates, textos acadêmicos, sem dificuldades. Por isto mesmo, é cada vez mais próxima de algo anacrônico.

É anacrônico tudo que já não corresponde mais ao tempo vivido. Falar em divergências racionais está cada vez mais próximo de alguma coisa assim. Se examinarmos como pressupostos os aspectos de Direita e Esquerda do parágrafo acima, enquanto ativistas e formadores de opinião posicionam-se contra o espectro oposto, discursos homofóbicos, racistas, sexistas, xenófobos e elitistas proliferam.

As piadinhas em redes sociais entre militantes dos dois lados mais parecem as picuinhas entre torcedores de times de futebol. São plenamente inofensivas, quando comparadas ao potencial de, para ficar em exemplos institucionais de hoje em dia, pôr em votação no Congresso Nacional a possibilidade de entidades religiosas proporem ação declaratória de inconstitucionalidade. Não é difícil imaginar que Esquerda e Direita deveriam ter algo a dizer sobre isso; porém, estão ocupadas criticando as posturas mútuas sobre livre mercado, socialismo, pois as metas abstratas e alcançáveis apenas ou a longo prazo ou jamais são mais fáceis de defender sem se comprometer. 

Há zonas cinzentas em que se aproximam. A luta contra corrupção no Brasil, a defesa do microcrédito como forma de sair da miséria absoluta, o Estado democrático de direito, a liberdade de expressão. Porém, aqueles que falam sobre os temas não costumam estar de acordo com os partidos políticos à esquerda e à direita no Brasil; que andam de mãos dadas (sejam elas esquerda ou direita) para dividir recursos públicos, ideologias bem à parte.

Seria cômico se não fosse crônico ver algo assim, como debates que acompanho há anos por dever de ofício entre defender mais igualdade ou mais liberdade. Enquanto isso, milhares de brasileiros mofam nas celas sem condenação alguma por meses ou até anos, aguardando julgamento; enquanto isso, a desigualdade é pregada por lideranças midiáticas e religiosas diuturnamente; a igualdade e a liberdade são debatidas retoricamente e restritas à retórica, sem levar em consideração o sofrimento na esquina.

Que possamos bater palmas, esquerda com direita, contra a expansão da intolerância que nos atropela a cada instante. Sendo chamados de individualistas ou coletivistas, se nos expressamos a partir da razão temos um dever ético de explicar ao máximo possível de pessoas o quanto ameaça as conquistas civilizadoras dos últimos séculos acreditar que se tem o direito de querer expurgar, ameaçar, condenar, perseguir todos que pensam de modo diferente. O espaço público para quem fala movido pelo ódio é cada vez maior. 

Os debates entre Esquerda e Direita contra ou a favor deste ou daquele ex-presidente da República são na TV Cultura. Os debates em que deputados racistas, homofóbicos, enfim, que baseiam seus mandatos em odiar e desprezar parcelas da sociedade atingem milhões de espectadores. Estamos desperdiçando nossa oportunidade de ser formadores de opinião de verdade. Ser ouvido envolve se aproximar de quem pensa diferente, de quem ainda está formando suas ideias, de quem não percebe a importância de certos fatos. 

Discutir o sexo dos anjos era a medida segura encontrada pelos monges medievais para estudar por prazer sem responsabilidade social. Quando reduzimos nossas ideologias a algo análogo, não estamos à esquerda ou à direita, mas com as mãos viradas para trás, escondidas do olhar público, protegidas de uma dialética do esclarecimento. Usamos a razão, mas não para trazer os problemas à luz da razão. Resta ficar cada vez mais distantes do Iluminismo, do bom senso e da vida em sociedade.

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