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sábado, 3 de novembro de 2012

Cuidado com rebeldes sem causa (e sem calça)

No fim de outubro, o escocês Stephen Gough foi preso novamente pela polícia. Ele acabara de ser libertado e já fora preso outras vezes antes. Infelizmente, ele se enquadra como um homem só em uma causa, o direito fundamental de andar nu. Não digo infelizmente por concordar com suas supostas ideias, mas pelos problemas que ele tem gerado.

A última prisão deu-se porque ele deixou de andar por rodovias e ao redor de cidades para circular em áreas públicas. O que antes gerou que ele fosse preso por diversas vezes por atentado ao pudor, perturbação da ordem, ganhou contornos mais graves quando foi detido em um parque, onde estavam crianças. Até então, já havia delegacias em que os policiais nem mesmo mais o prendiam, cansados do constrangimento de levar alguém que se recusava a vestir roupas.

Julgado, tirava as roupas na frente do juiz; preso, recusava-se a usar uniforme da prisão. Antes que alguém se empolgue com fantasias sobre ver alguém nu, prestem atenção à foto, pois quem supõe ter uma causa não necessariamente será um garoto-propaganda, não há "controle de qualidade" visual sobre tal escolha.

Nos últimos seis anos, ele passou quase todo o tempo atrás das grades porque supõe que seja um dos direitos humanos se expressar assim. Tentemos acompanhar o que seria seu modo de pensar. Se a roupa expressa normalmente ideias, costumes, classe, religião, a sua ausência completa seria uma omissão. Se quiser defender o direito a se expressar, estaria falando do direito de permanecer em silêncio. Seria contraditório, querer defender o direito do modo mais radical apenas para se omitir.

Naturistas defendem o direito a andar nu, mas de um modo que não atinja o direito dos outros de vestir roupas e de não ver pessoas nuas. Não está descrito em nenhuma declaração internacional de direitos, assim como o que defende o andarilho também não. Porém, está pacificado nas teses de Immanuel Kant que para ser crescentemente humano um direito tem que tender à universalidade. Deixar de se vestir entre pessoas que querem estar nuas corresponde a este imperativo kantiano; andar onde quiser, ofendendo valores e agredindo a formação de crianças, não.

Semelhante é o problema de um outro movimento igualmente desnudo, o Femen, nascido na Ucrânia mas já com representantes em diversos países (inclusive uma primeira brasileira recentemente) que nos últimos anos tem tido representantes em diversas passeatas ou simplesmente plantões de manifestantes em lugares públicos europeus, em que moças ficam sem a parte de cima das roupas, fazendo topless, para atrair câmeras para seus cartazes por ideias as mais diversas. Considerando que, diferente do andarilho nu, o Femen parece ter certificado ISO de estética, as manifestantes atraem realmente holofotes para si, porém não encontrei quem lembrasse em foruns sobre o que elas protestavam.

Lidamos mal no Ocidente com nossos corpos. Eles assustam, atraem público que paga para se chocar ou se excitar, em qualquer programa de TV ou sessão de cinema ou teatro em que apareça gente com pouca (ou nenhuma) roupa. Não sabemos bem o que fazer culturalmente com a liberdade sexual das últimas décadas, ainda tentamos nos equilibrar entre valores que rimam com pudores e tentativas de driblar estes limites. Em um dos casos, estar sem roupa é a própria causa; no outro, é meio para se defender algo. Em ambos, o confronto é com outros direitos. O Femen tem intervenção policial em marchas para retirar delas mulheres quase sem roupas, quando não haveria qualquer confronto policial sem estas medidas. Atrapalham, portanto, causas, que teriam visibilidade por serem sonhos que já não se sonha só, mas que querem defender apenas serão vistos se houver apelo fácil envolvido.

Um problema semelhante pode ser identificado nas Marchas das Vadias, que já são um sucesso em diversas cidades brasileiras assim como em boa parte do mundo. Com uma causa nobre e de fácil adesão, que mulheres não estão liberadas para violência sexual devido ao modo como se vestem, não convidariam tarados por isso, a denominação une as mulheres a partir do estigma, em vez de enfrentá-lo, anulá-lo. Quando decidem que vão desfilar nas ruas "vestidas como prostitutas" estão dizendo que há um modo de se vestir próprio de uma categoria e que aderir à moda seria uma causa por si, que as palavras de ordem já seriam subentendidas. Pensemos se o movimento de pessoas com deficiência fizesse uma "marcha dos aleijados" ou se a Parada do Orgulho Gay se denominasse "desfile dos viadinhos". Com todo respeito à diversidade de grupos em desvantagem de nossa sociedade, mas as pessoas estariam se unindo a partir do que as isola dos demais naquilo que mais as marca como objeto de preconceito, em vez de como pessoas ricas na diversidade de papeis sociais. Seria combater rótulos por meio de tatuá-los na própria identidade, o que parece fortalecer o que oprime em vez de combatê-lo.

Não sabemos lidar com quem somos coletivamente, nem com o que representamos mas, ainda mais grave, não sabemos como defender nossos direitos relacionados à intimidade. Mais do que a privacidade, esfera da vida cotidiana individual, a intimidade tem sido relacionada ao uso que fazemos do próprio corpo. Expor este uso pode gerar polêmicas fáceis, como sempre são as polêmicas sexuais, mas evitam que alguém veja o andarilho nu como o ex-fuzileiro naval que ele é, o Femen como um movimento ambientalista e a Marcha das Vadias como uma representação contra a violência às mulheres. Tudo se reduz ao corpo e nunca superamos que somos mais do que um conjunto de zonas erógenas.

Pessoalmente, prefiro as campanhas do agasalho em períodos frios, que têm objetivos claros evitando a morte das pessoas, às causas sem calças que apenas defendem que o corpo não é algo que todos têm, mas razão primeira para estandartes ou conflitos.

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