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terça-feira, 6 de novembro de 2012

A liberdade de expressão contra os outros se expressarem

Vamos continuando na involuntária série sobre liberdade de expressão. Dessa vez, expressar ideias contra quem expressa as próprias. É um conflito de interesses que ganha muito mais tensão do que a simples defesa de que "todos têm sua própria opinião". Vamos examinar o exemplo da semana.

Nergal (foto à direita), vocalista de uma banda polonesa de death metal, Behemoth, costuma rasgar a Bíblia em seus shows. Agora, responde a uma ação criminal em seu país por isso. Não é difícil encontrar vídeos seus fazendo isso, afinal ele afirma que tem feito isso há dois anos. Em sua defesa, ressalta que não quer ofender ninguém, apenas criticar a Igreja Católica.

Não faz muito tempo, cartunistas causaram grande alvoroço porque fizeram caricaturas de Maomé em jornais, de modo articulado, em pouco tempo. Acontece que, para o Islamismo, "o profeta" (como a ele costumam se referir), não pode ser retratado de nenhuma forma. Os editores dos jornais sabiam disso, mas não se importaram. É possível contestá-los e defendê-los, mas ficaram muito longe do que foi feito pelos roqueiros. Não exigiram que ninguém deixe de ler algo ou orar por algum Deus, não censuraram ninguém.

Voltemos à banda de rock. No polêmico depoimento, Nergal recomenda às pessoas que urinem na Bíblia. Qual é o significado político do gesto? Nenhum, apenas ofender e provocar, sem qualquer contexto estético que possa apresentar a situação como uma encenação, reprodução de um discurso ou algo semelhante. É apenas grosseria. Já escrevi por diversas vezes sobre a facção supostamente ligada ao humor que agride a tudo e a todos, sem piadas, apenas palavrões e difamações, considerando que têm alguma espécie de imunidade por se chamarem de humoristas.

Querer chamar atenção para uma causa faz com que artistas estimulem a reflexão, não apenas o escárnio alheio diante do desprezo de quem os provoca. Se a mensagem não foi bem recebida, pode ser diferença de opinião; mas, se foi recebida de um modo diferente do que se pretendia, alguma coisa pode estar errada.  

Porém, estimular que um livro seja rasgado e urinado quando tão poucos o lêem, não passa de censura. Imagino, sendo um ramo do heavy metal tão restrito, o que os artistas da banda pensam daqueles que exigem que ninguém assista aos seus shows, ouça suas músicas. A liberdade de expressão tem como uma das suas condições que cada um possa se expressar, que as ideias não impeçam que outros se manifestem.

É como um detestável filme propõe. Talvez alguém lembre de (lamento por mencioná-lo) Sociedade dos Poetas Mortos. Um professor que se considera ousado e dono de ideias livres e superiores, exige na primeira aula que seus alunos rasguem as páginas da introdução a um livro de literatura. Em nenhum momento ele deixa claro por que devem rasgá-las, apenas manda. No final do filme, um novo professor pede que seja lida a introdução, mas ninguém a tem nos seus livros escolares. Ninguém sabe por que foram rasgadas, não dá para explicar ao novo professor. Sob visita oportuna do ousado, sobem nas mesas e chamam-no de Capitão, Meu Capitão, em referência a um ótimo poema de Walt Whitman que é recitado no filme. Porém, o poema é sobre lealdade e obediência, não sobre liberdade de expressão.

De modo semelhante agiu a banda. Que seus ouvintes ouçam-na e orem por ela fielmente, obedecendo às ordens do seu vocalista, parece ser o que eles esperam. Ver de olhos abertos, ouvir mesmo as vozes mais dissonantes, falar mesmo que engasgando com palavras, os diversos sentidos precisam ser estimulados pelas artes, para que cada um possa mostrar o que sente, sem que alguém ameace urinar sobre quem pensar diferente.

1 comentários:

Fôlha disse...

Gostei muito do texto, Sérgio. Parabéns!

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