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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

No Dia das Crianças, somos quem queríamos ser? Seremos quem ainda podemos ser?

Há alguns anos, Bruce Willis queria mudar sua imagem de ator de  filmes de ação e voltou ao começo, às comédias. Entre os filmes, estava um de baixas pretensões, em que ele, adulto, encontrava-se consigo mesmo quando criança. O garotinho gordo e encrenqueiro não gostou do adulto preocupado com a aparência mas inseguro que veio a se tornar. 

Somos quem quisemos ser um dia? Lembro de mim quando criança, visualizo momentos interessantes sem fotos nem vídeos, para ter clareza do que ficou com o tempo. Tenho lá minhas conclusões e o relatório não parece dos piores. É relevante pensar nisso quando se é adulto. Uma das finalidades de se definir assim é se dar fim. Não o fim da vida, mas já ter limites claros para os sonhos que foram possíveis em outras épocas ser sonhados agora já não daria mais para defender do zero.

Já tive aluna que, após o falecimento do marido repressor, decidiram fazer faculdade, sonho que carregavam há décadas. Já conheci quem fizera o mesmo com o direito de ir e vir, viajando na viuvez. Não são raros alunos de meia idade que ali se encontram por uma nostalgia que não querem prender no passado.


Vivemos tempos estranhos sobre nostalgia. Na crise de expectativas de nosso século, de ideologias em queda livre, religiões anacrônicas ou extremistas se disseminando mais rápido do que crenças equilibradas, até torcida de futebol parecendo ato desesperado de crer em alguma coisa, a volta ao passado para se sentir bem é epidêmica. E quanto mais distante, melhor. Jovens de 20 anos de idade têm nostalgia de tempo que não viveram, reclamando que músicas e programas de TV dos anos 1980 é que eram bons. Outros, acima dos 30, têm nostalgia de uma infância de que mal lembram, porque esqueceram tudo de ruim, ou deixou de ter importância, e fica mais prático imaginar e reinventar o que já não se sabe bem como foi. A infância fica reconstruída, como tábua de salvação na crise diuturna.

Brinquedos, videogames, HQs, o que relembrar a própria infância será melhor para cada vez mais adultos, sem prazer na vida supostamente madura. Falta aprendizado e sobra desespero de volta para o passado. A criança que éramos aprendia quando caía no chão e não queria ficar relembrando a queda, mas que não caiu de novo, ou pelo menos não do mesmo modo. Mas hoje nem o Mertiolate arde mais, os brinquedos são nos shopping centers no chão de bolas ou acolchoado. Sem o aprendizado, crescem como adultos que querem lembrar só da queda, ou que já não vão mais cair.

Enquanto tantos se entregam ao próprio passado, há crianças com fome, com doenças, sem casa, sem família, sem brinquedos. Ainda há as próprias crianças, os próprios filhos que vão brincando sem os pais do lado, entregues estes a suas ilusões de tempos melhores talvez nunca vividos. 

E o filme que abria este texto? Quem lembrar do nome, faça favor de informar. Melhor esta troca nossa do que a facilidade que eu teria de procurá-lo logo no Google. Mas, o que acontecia? Os dois Bruces Willises decidiram chegar a um acordo. O que nunca mais seria o mesmo mas o que ainda dava para melhorar com base no que o garotinho era e se perdeu. Daí, encontram com o mesmo personagem de umas décadas depois, que se tornou possível por aquele encontro. O sujeito voltou a pensar no futuro, lembrou qeu ainda estava errando e aprendendo, caindo e levantando e sempre haverá novos Mertiolates na vida para ensinar com alguma dor...

E o que você, com 20, 30, 40, 50 anos... o que vai ser quando você crescer?



(Todas as ilustrações foram extraídas da falecida Revista Bundas, que não era nada infantil, eu sei, mas trouxe uma boa seleção de ilustrações sobre direitos das crianças, de uma exposição das Nações Unidas)

2 comentários:

Folha disse...

Excelente texto, Sérgio. Parabéns!

Rita Mendonça disse...

Adorei. Me fez refletir sobre a criança que fui e a criança que sou.

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