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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Mediando conflitos para construir a paz


Acontecerá por esses dias o 1o Seminário Alagoano de Mediação de Conflitos, como pode ser visto no cartaz acima. Em faculdades de Direito, fala-se sobre o assunto como "métodos extrajudiciais de solução de conflitos". Na vida, fala-se muito mais.

Vejamos em nossas próprias rotinas. Ontem, um vizinho imbecil bloqueou meu carro porque não o estacionei na garagem como ele queria. Gritava, ameaçava bloquear sempre, e dizia que nunca o assunto seria resolvido em reuniões. Há uma dificuldade histórica de criaturas pré-civilizadas para reconhecer que vivemos em sociedade e que, após o conflito cotidiano instaurado, haverá o dia seguinte e muitos outros depois. 

O seminário tem a imensa virtude de seu subtítulo: "na família, na escola e no trabalho". Com diálogo , varas de família, juizados de infância e juventude se esvaziariam. Não precisaríamos da promulgação de uma lei contra espancamento infantil (que a imprensa insiste em chamar de "lei da palmada"), não precisaríamos da Lei Maria da Penha, enfim, não seriam necessárias leis sobre a vida doméstica. Nas escolas, não seria preciso levar a órgãos de defesa do consumidor as relações entre professor-gestão escolar-aluno; seria possível resolver, como fora em outras épocas, simplesmente chamando os pais e apresentando os objetivos da instituição. No trabalho, se cada um olhasse para o outro como se fosse tão produtivo quanto precisando apenas de estímulo, não se falaria sobre assédio moral, assédio sexual, dano moral trabalhista e a rescisão indireta (quando o empregado pede demissão por pressão do empregador) não seriam tão comuns. 

O Direito cresce em nossa cultura, como já sufoca o cotidiano de grandes cidades dos Estados Unidos. Já precisamos de advogados para as menores práticas entre as pessoas. Há faculdades de Direito quase a cada esquina. Tudo isso porque as pessoas apenas pedem desculpas, licença, uma gentileza umas às outras com a assinatura de um juiz em uma sala de audiência. Não é à toa que, nos indicadores de desenvolvimento humano (IDH) o Brasil sempre esteja no fim da fila. Falta humanidade para lembrarmos que vivemos em sociedade e, querendo ou não, aquele imbecil (meu vizinho estúpido de novo) continuará morando no mesmo prédio no dia seguinte (não, não vou tentar jogá-lo da janela). 

Fico feliz com os esforços para que reaprendamos a negociar. Concordo com Stephen Kanitz quando defende em tantos de seus artigos em revistas semanais que todos viveriam melhor se fizessem um curso rápido de vendas na juventude. Aprende-se a cumprimentar os outros, ouví-los, agradar, enfim , tudo que é preciso para fazer cada vez mais vínculos na vida social. Pois para isto precisa-se muito mais do que aumentar os contatos efêmeros de redes sociais virtuais.

É parte da negociação o diálogo, estar diante do outro, ouvir uma proposta e, com base nela fazer uma contraproposta ou mostrar que ela não será possível. Mas também é triste que hoje seja preciso ensinar algo que um dia foi comum a quase todos. Não nos falamos mais como um dia conversávamos, sem apenas curtir ou compartilhar, mas deixando comentários ao pé do ouvido de alguém, com base no que este alguém dissera antes. Na cultura muçulmana, fala-se, com base no Alcorão (me disseram, não li por lá) que a pechincha é a oportunidade para que o vendedor, que precisa do lucro sobre a venda da mercadoria, não esteja tirando vantagem de alguém, podendo ouvir do cliente o quanto pode pagar e assim respeitá-lo como pessoa. Trouxeram esta prática educada quando vieram nas caravelas educar o Brasil, mas o comércio falou mais alto do que a conversa que era seu método. 

Por essas e outras, recomendo o seminário e que meu vizinho vá pra... um seminário como esse.

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