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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Eleições e Outros Gritos de Guerra

Não é nada difícil encontrar quem reclame que falta uma "causa" para jovens de hoje. Cobra-se o idealismo daqueles que vivenciavam as Diretas já, os porões da ditadura etc. Sem me aprofundar em algo tão profundo, não parece ser um problema de jovens de hoje, mas de todos do tempo presente. Sinais disso podem ser encontrados nas pequenas lutas coletivas do cotidiano.

Começaram as campanhas eleitorais, todas. Campanhas para desembargador em vários estados pelo quinto constitucional, campanhas para vereador e prefeito, campanhas para a presidência da OAB... em todas, trata-se o candidato querido como se não houvesse amanhã. Existe, sim, amanhã, mas chegaremos lá.

Cada candidato lança sua campanha para um cargo voluntário que interessa diretamente apenas a uma categoria profissional específica, Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em um estado do país, como se fosse a nova Revolução Francesa. "Faço parte de um grupo e interesses particulares não se sobrepõem à vontade coletiva"; "é preciso mudar, ninguém mais suporta tudo como está hoje"; "querem calar a voz da mudança, como se isso fosse possível", entre outros brados libertários. Não me refiro ao estado onde vivo, pois acompanho diversos amigos advogados de outros estados por meio de redes sociais. Enquanto isso, advogados empregados esquecem que existe um sindicato de sua categoria, cuja diretoria é eleita sem que grande parte dos profissionais saiba quando, como, para quê.

Um vereador, cuja carga de trabalho lida com competência residual, deixada pela Assembleia Legislativa, pelo Congresso Nacional, quer mudar a cidade. Todos parecerem querer. "Por uma ________ renovada, votem _________". As tarefas a que normalmente se atribuem ou de que se orgulham poderiam ser, grande parte das vezes, melhor desempenhadas por assistentes sociais competentes ou engenheiros de tráfego regulares. É difícil saber por que querem o cargo.

Fui parado em um restaurante por um candidato a desembargador. Há uma vaga aberta para o Tribunal Regional do Trabalho da 19a Região. "Você conhece a minha vida, sabe que sempre me dediquei a lutar por todos nós, defender a advocacia livre, a justiça". Batman entrará nos cinemas em uma semana. Ele julgará processos, nada além disso. Precisa ter um bom currículo, experiência, esbarramos mais uma vez nos nossos tempos de tédio.

Na ausência de uma ONG onde defender direitos para vulneráveis da sociedade, adotar alguém, plantar uma árvore, enfim, mexer no mundo, aposta-se na própria campanha como uma forma de revolução pessoal e global. Se os objetivos forem expostos com os pés no chão, poderá atrair um bom número de eleitores cansados da mesmice de promessas vazias. Porém, nesse caso, esquecerá dos próprios sonhos. Eles ainda existem.

Não me refiro a demagogos, hipócritas, mas àqueles que abraçam certo discurso porque precisam. Esqueçamos dos candidatos. Lembremos dos amigos, colegas de trabalho, que vestem uma campanha de terceiros sem serem pagos para isso. Sim, eles realmente ainda existem, contra todo o desencantamento do mundo encantam-se pela imagem criada para aquele que até dias antes era mais um bom amigo ou mais um profissional responsável.

Sem sonhar alto, talvez enxergássemos melhor limites e possibilidades de cada cargo disputado. Votaríamos melhor ou abriríamos mão, com consciência, de votar. Faltam critérios, sobram frustrações sobre por que lutar e desperdiçam-se boas intenções. 

E comecei a escrever sobre eleições desse ano, que serão tantas para profissionais do Direito...



... mas não é nas eleições que nossos problemas se encerram. Os eleitores de hoje serão vizinhos, colegas, conterrâneos, iguais em desgraça como no Blues da Piedade de Cazuza e nada mais.

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