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terça-feira, 12 de junho de 2012

E o Lanterna Verde é gay. E daí?

Na semana da marcha do orgulho gay, fica uma notícia ridícula no ar. A editora DC Comics divulgou que um dos seus "mais icônicos" (como gostaram logo de informar) personagens, o Lanterna Verde da Era de Prata dos quadrinhos, Alan Scott, agora é gay.

Segundo Alex Ross
em "Kingdom Come"
Explicando melhor: em busca de novos leitores, a editora a cada 10 anos recomeça tudo na cronologia das histórias. Dessa vez, parece que radicalizaram mais, não aproveitando muita coisa do que havia sido escrito antes. Nas últimas décadas, Alan Scott era um ex-editor de jornal em Metropolis, nos anos 1940, que adquiriu os poderes de Lanterna Verde de um modo diferente dos outros lanternas que vieram depois. Teve dois filhos, também super-heróis. Liderava a Sociedade da Justiça da América, grupo interessante que se mantinha ativo nas histórias de nossos dias, até um ano atrás, com heróis veteranos preparando uma nova geração. 

Creio que perceberam quantas informações havia sobre o personagem. Quando se lê sobre o reboot dos quadrinhos (como a editora gosta de chamar este recomeço), sabe-se que o Super-Homem agora é solteiro, órfão, tem uniforme cheio de novidades; que a Mulher-Maravilha agora é filha de Zeus, que há apenas um Flash contra um monte deles antes; que Batman trabalhava escondido há muitos anos como vigilante noturno etc. Sobre Alan Scott, tudo que foi divulgado foi que ele agora é gay. Li a primeira história e nada fica claro sobre ele, a não ser que pode bancar o próprio jatinho e tem ações aqui e ali. 

Os estigmas funcionam assim e é bom tomar cuidado com eles. Afinal, um sujeito é reduzido a uma característica, que o define, o resume, o esgota. Nunca vi alguém que ao se apresentar diga "Prazer, meu nome é Jonas e eu sou gay". Pois foi assim que apresentaram o personagem, tudo que importa saber sobre ele é sua homossexualidade e, para que não fiquem dúvidas, já divulgaram uma página com beijo na boca em namorado, que rapidamente despertou a fúria de moralistas desocupados dos EUA. Segundo a editora, o objetivo é que as histórias espelhem a diversidade de seus leitores. Então, há mais latinos, mais negros, mais gays. Li boa parte das histórias deste recomeço, que no próximo mês estarão nas bancas do país (o site da editora permite baixar os originais em inglês, nada muito caro). Há muitos estigmas, estereótipos, clichês sobre o que significa esta diversidade de características, mas poucas origens, poucas personalidades. Há muitos rótulos e pouca alma, quase nenhuma, nas histórias. 

Enfim, desisti de ler as revistas da editora. Talvez um encadernado de uma minisséria ou outra escape, mas não edições mensais. Substituíram décadas de convivência com histórias de vida fictícias, ora boas ora nem tanto, por um amontoado de marcas sobre nomes, já que tudo que importa saber sobre os personagens não brancos, não heterossexuais, não norte-americanos é o que os torna necessariamente diferentes, segundo a editora, do que seria seu padrão de leitores. Em busca da diversidade, os preconceitos dos autores não escapam.  A diversidade, nesse caso, como já vem acontecendo com filmes e seriados dos EUA, não está nada próxima da igualdade.

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