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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Violência em Alagoas rouba a vida pública

Ontem, ocorreu um grande protesto devido à morte do médico José Alfredo Vasco Tenório, no Corredor Cultural Vera Arruda. Para quem estiver longe de Maceió (e para quem está na cidade, como logo explicarei), é uma longa praça que liga uma avenida cheia de restaurantes e bares à praia. 

O corredor cultural seria uma excelente ideia. Conectaria dois aspectos fortes do turismo local, a gastronomia ao litoral. Além disso, no trajeto haveria referências a artistas locais em murais diversos. Fui logo que inauguraram e não era possível negar o quanto era uma ideia bonita. 

Infelizmente, como sempre ocorre com espaços públicos, a classe média não sabe o que fazer com eles. Têm sido abandonados e, à medida que são desocupados, o Poder Público não se preocupa em manter em ordem, por ausência de desconforto daqueles que seriam seus usuários. No caso, valeu mais o aspecto de corredor do que de praça, e gradualmente a praça, como todas, foi cada vez mais abandonada. A iluminação começou a ter falhas, ninguém se incomodava. Um posto da Polícia Militar em frente foi fechado, mas o trânsito era maior do que o passeio, então não surgiu desconforto. 

Até que usuários de drogas roubaram a bicicleta do médico e o mataram. Com toda a dignidade do protesto e os merecidos parabéns a todos que por lá foram, mas hoje é o dia seguinte. É preciso reconstituir o caráter público daquela e de tantas outras praças. O maior ato de rebeldia é levar o cachorro para passear por lá e lá ficar, não apenas atravessar um corredor, mas vivenciar uma praça. Levar os filhos, conhecer as plantas, que espaço público desocupado logo encontra quem o utilize. 

De modo preventivo, para evitar que novas tragédias ocorram, é relevante dar olhada em cada bairro em quantas praças as crianças já não podem mais brincar, quantas estão sem iluminação, jardim, brinquedos. As praças integram moradores de uma vizinhança. Não é à toa que quanto mais condomínios surgem mais entre eles copiam o modelo público com praças entre muros.

É um sinal de que isso gere mudanças algo que os muros em grandes cidades brasileiras sempre mostram. Preste atenção a muros com grafite, mesmo com pichações se preferir. Um grafiteiro e um pichador não costumam sobrepor o desenho ou a assinatura de um sobre do outro. Cada um respeita o espaço do outro. Muros de escolas que são apenas brancos são interpretados por eles como tela livre e fazem o que bem querem. Escolas que conversam com artistas para que ocupem o espaço ficam livres de vandalismos gráficos e ganham arte. 

Sem querer comparar arte com crime, mas podemos usar a primeira para combater o segundo. Quantos coretos bairros como Jaraguá, Centro e Farol têm que há muito tempo não encontram uma banda? Do mesmo modo, quantos mirantes na área alta da cidade, já não podem ser usados com serenidade no fim de tarde para mirar o litoral de longe? Renderiam ótimas fotos, se fosse possível continuar com as câmeras. 

Que a movimentação contra violência não apenas se mova para passar pelo corredor, mas converta-o em praça e não apenas passem, mas mostrem que a vida comunitária ainda tem espaço nas cidades.

Obs.: Tema proposto por Ana Rosa Amorim, ontem.

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