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sábado, 19 de maio de 2012

O que você anda lendo?

No recente e excelente 1o Congresso Internacional de Direito da FITs, ocorreram palestras que renderiam muitas publicações por aqui. Aproveitarei ideias mais ou menos soltas de algumas delas. Começando a relembrar o evento, a certa altura de sua palestra, o professor Álvaro de Azevedo Gonzaga perguntava: a propósito, já perguntaram o que seus professores lêem, o que eles têm estudado? E dizia por onde andam suas leituras.

São questões necessárias, que quem, como eu, leciona deve fazer aos colegas e quem, como eu, é estudante deve fazer a seus mestres. É o momento em que a relação formada pela sala de aula deixa de ser baseada apenas na ementa e nos livros obrigatórios básicos de uma disciplina. É quando se pode compreender o outro como alguém que se atualiza, que lê por prazer, que gosta das habilidades que estão envolvidas no seu ofício.

Tristes daqueles que enxergarem as perguntas como um desafio. Quem responder que anda lendo apenas livros para concursos, pois se prepara para um deles, já é uma vivência de grande relevância para muitos alunos que têm ou terão objetivos parecidos. Quem disser que apenas lê o que a advocacia ou outra carreira paralela à docência lhe exige, também demonstra ao estudante apreço profissional e pode ser um bom exemplo na conduta. Mais triste apenas daqueles que levarem alguma espécie de susto com a pergunta ou aqueles que mentirem.

Uma pesquisa divulgada no livro Freakonomics, de Levitt e Dubner, mostrou, com base em escolas dos Estados Unidos, que, mesmo com os investimentos públicos em bibliotecas nas escolas, os melhores desempenhos de alunos se davam quando eles tinham livros dos pais em casa; quanto maior a biblioteca da família, melhor o desempenho. Foi apurado que não era uma questão de material doméstico de pesquisa, mas dos pais mostrarem para o filho que valia a pena estudar. No nosso caso, os pais muitas e muitas vezes não têm a mesma formação da carreira que o filho busca no ensino superior. Então, é preciso (sem querer dizer que teríamos algum papel como substitutos de pais, o que causaria mil problemas novos e nenhuma solução) que complementemos este exemplo mostrando que tem valido a pena, para nós, ler por prazer também. 

A leitura por prazer é cada vez mais rara em nosso país. Estatísticas são fáceis de encontrar por todos os lados e não vale a pena estragar a semana de ninguém fazendo relembrar. Porém, quando se vê alguém que gosta de ler afirmando que está lendo e, ainda mais, que faz pesquisas além do que lê, o prazer é compartilhado.

O que não é jamais produtivo é o professor que se importa apenas em coletar erros de Português dos alunos para rir ou se irritar em grupo nas salas de professores. Se os alunos puderem desenvolver um vocabulário mais amplo, poderão superar aquelas falhas. Para aqueles que não quiserem, não há grande esforço que faça diferença. Para quem quiser, rir de falhas alheias vai apenas inibir. O efeito de dizer o que lê é muito mais produtivo. 

Empolgado pela palestra, vou contar uma breve história. Há alguns anos, ensinei em uma faculdade todas as manhãs indo lá ouvindo a rádio CBN. Como consequência, as notícias frescas na cabeça eram exemplos frequentes em sala. No segundo mês de aulas, vários alunos disseram que passaram a se informar principalmente pela mesma emissora, em vez de pela internet, devido à qualidade dos comentaristas. Não era bajulação, eles mencionavam as reflexões do dia anterior para mim e para outros professores. Para quem quiser ainda assim resmungar que eram poucos em uma multidão imensa de uma sala de aula, prefiro pensar nestes poucos do que na figuração que ali possa estar para evitar uma sala vazia; estes vão se aproximando mais tarde, talvez do conteúdo de outro docente, desde que ele demonstre que se importa com seu ofício, ou seja, que se atualiza, que lê no tempo livre, que tem pesquisas próprias.

Outro palestrante, o professor Eduardo Rabenhorst, mencionou em tom triste de alguns segundos que lamentava muito seus alunos na Paraíba não lerem mais os clássicos do Direito brasileiro nem sobre a sociedade brasileira. Talvez professores de cada área apenas mencionem em sala os autores da moda, de livros "simplificados", "esquematizados", "resumidos"... dentro de alguns meses alguém deve lançar "Direito para colorir" ou juntar os pontos, tamanha a falta de respeito de algumas editoras pela inteligência de quem visa aprender na graduação.

Então, fica a pergunta para os amigos. Não como desafio nem provocação, por favor, mas para trocarmos ideias sobre o que nos alimenta espiritualmente. Vou responder com o que eu ando lendo e estudando. Por razões editoriais, ando lendo sobre a lei de estágio. Pelo Doutorado, coleto sempre informações sobre políticas públicas de acessibilidade. Gosto de revisar aulas de Direito do Trabalho por Vólia Bomfim Cassar e gostei muito das atualizações mais recentes de Mauricio Godinho Delgado. Para viver melhor, sempre fico de olho em Bauman, comecei agora "Vida de consumo". Por diversão, a vaga está aberta após uns meses em que terminei desistindo de ler "Guerra dos tronos" no segundo volume. Mas "Daytripper" foi uma HQ linda que li faz dois meses e fez superar a desistência.  

E boas leituras para todos.

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