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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Instagram valendo mais que NY Times e ambos menos que a realidade


Uma palavra escrita a lápis
Eternidade da semana
Qualquer nota, qualquer notícia
Páginas em branco, fotos coloridas 

Humberto Gessinger
"O Papa é pop"


Um blog americano fez uma curiosa e cruel comparação (mas minha fonte foi outra). O Instagram, com 551 dias de vida (na data da publicação no blog), já valia mais do que o jornal New York Times, fundado em 1851. O primeiro valeria, no mercado financeiro, 1 bilhão de dólares (valor pelo qual foi comprado pelo Facebook) enquanto o segundo valeria uns 50 milhões a menos. 

Seria possível falar em crise do jornalismo tradicional, mas o jornal em questão tem enorme tradição, é referência mundial e tem sido pioneiro na adaptação ao jornalismo eletrônico das mais diversas formas. Talvez, o problema seja bem maior, marcante de nossos novos e superficiais tempos. 

É preciso pensar em para que serve o Instagram. É um aplicativo para smartphones que permite tirar fotos e editá-las, com grande número de efeitos. Como quem lê este blog certamente já constatou, hoje todo celular tem câmera. O que torna o programinha especial é a facilidade com que modifica a imagem e a compartilha quase instantaneamente em redes sociais. 

Se compararmos as duas referências que abrem este texto, a conclusão é uma só. Mudar os fatos e passá-los alterados adiante é gratuito; a busca pela verdade dos fatos custa a assinatura do jornal. Mudá-los e transmití-los tem sido mais reconhecido pelo mercado financeiro do que a atualização sobre a realidade. 

No domingo, foi divulgado pela Folha que um grupo de adolescentes estuprou uma garota de 13 anos de idade. Ela os denunciou em uma delegacia, dizendo que foi dopada e que disseram que divulgariam o vídeo na internet se ela os denunciasse. Prestemos atenção à natureza da chantagem. Eram colegas de escola, não esconderam seus rostos, sorriram no vídeo, em nada disfarçaram e ainda deixaram claro que estavam se divertindo com a intenção de passar adiante. Após os depoimentos, o delegado suspeita que existam outras vítimas. O crime sexual é praticado para gerar pageviews online e a ameaça de morte social da vítima fica na divulgação em rede. Por saber que o impulso pela publicação em sites obscuros é forte, a vítima fez bem em denunciar logo. 

As duas notícias têm ligação, o mundo policial e o mundo financeiro não estão nada distantes. É de enorme relevância hoje o consumo de identidades. Ser quem somos é algo que pode ser obtido por alguns cliques, comprando mercadorias ou adquirindo popularidade nas redes esperadas (situação em que se pode ser a própria mercadoria, atraindo anúncios). Assim, alterar como se é visto é mais desejável do que ser conhecido. Não faz mais sentido, então, em larga escala, buscar reconhecimento. O "re" pressupõe que antes alguém fosse conhecido, o que já não mais se deseja. Basta lembrar que os supostos escândalos de manipulação de imagens na publicidade e em revistas masculinas de nudez feminina não geraram crise nas agências nem nas editoras. Todos já pressupomos que sejam produtos de fantasia, não a realidade. 

Não é um discurso purista ou ingênuo contra um aplicativo. Eu mesmo o instalei e gosto dele (espero aprender a usar logo...). A grande questão é o que significamos coletivamente quando passamos cada vez mais tempo dando sentido a quem nós somos por meio de redes sociais pela internet. A sociedade de consumo torna-se cada vez mais intensa em desconstruir e reconstruir identidades, com pessoas buscando audiência como se fossem programas de TV. Quem não conhece alguém que publica algo no Facebook e fica esperando os "curtir" e os comentários por minutos em frente à tela? 

Como diria um comercial de refrigerante, imagem não é nada; sede é tudo. Porém, a sede de ser alguém tem sido enfrentada com produtos que apenas nos tornam, cada vez mais, embriagados por quem queremos parecer que somos e desidratados de alguma essência. Mas a foto vai sair em preto e branco, envelhecida, com molduras diversas...

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