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quinta-feira, 29 de março de 2012

Notícia comentada: Quando você marcou com amigos na biblioteca?



Deu no Estado de São Paulo de ontem.
O desempregado gaúcho Rodrigo Soares tem 31 anos e nunca foi a uma biblioteca. Na tarde desta terça-feira, ele lia uma revista na porta da Biblioteca São Paulo, zona norte da cidade. "A correria acaba nos forçando a esquecer essas coisas." E Soares não está sozinho. Cerca de 75% da população brasileira jamais pisou numa biblioteca - apesar de quase o mesmo porcentual (71%) afirmar saber da existência de uma biblioteca pública em sua cidade e ter fácil acesso a ela.
A correria é um álibi fácil. Lembro que uma pesquisa sobre aparelhos culturais em Maceió (onde moro) dizia, há aproximadamente dois anos, que mais da metade da população não usava os aparelhos culturais (incluídos não apenas teatros, cinemas, museus, mas também praças, mirantes) porque não queriam.

Vão à biblioteca frequentemente apenas 8% dos brasileiros, enquanto 17% o fazem de vez em quando. Além disso, o uso frequente desse espaço caiu de 11% para 7% entre 2007 e 2011. A maioria (55%) dos frequentadores é do sexo masculino.
Os dados fazem parte da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro (IPL), o mais completo estudo sobre comportamento leitor. O Estado teve acesso com exclusividade a parte do levantamento, cuja íntegra será divulgada nesta quarta-feira em Brasília.
Para a presidente do IPL, Karine Pansa, os dados colhidos pelo Ibope Inteligência mostram que o desafio, em geral, não é mais possibilitar o acesso ao equipamento, mas fazer com que as pessoas o utilizem. "O maior desafio é transformar as bibliotecas em locais agradáveis, onde as pessoas gostam de estar, com prazer. Não só para estudar."
Apostaria que nem mesmo facilmente para estudar. Se pensarmos nas bibliotecas de escolas e faculdades, é preciso atentar para quantos dos professores visitam periodicamente a biblioteca pegam emprestado algum livro ao menos para saber como funciona o sistema, doam exemplares do que escrevem para aproximar o estudante, partilhando sua personalidade como autor com aquele espaço. 
A preocupação de Karine faz todo sentido quando se joga uma luz sobre os dados. Ao serem questionados sobre o que a biblioteca representa, 71% dos participantes responderam que o local é "para estudar". Em segundo lugar aparece "um lugar para pesquisa", seguido de "lugar para estudantes". Só 16% disseram que a biblioteca existe "para emprestar livros de literatura". "Um lugar para lazer" aparece com 12% de respostas.
A falta epidêmica do hábito de leitura no país faz com que livro seja associado a ferramenta de trabalho, não à descoberta de si mesmo, o prazer com novas ideias, o pensar livre sobre o mundo de que se faz parte.
Perfil. A maioria das pessoas que frequentam uma biblioteca está na vida escolar - 64% dos entrevistados usam bibliotecas de escolas ou faculdades. Dados sobre a faixa etária (mais informações nesta página) mostram que, em geral, as pessoas as utilizam nessa fase e vão abandonando esse costume ao longo da vida.
O costume, então, tende a ser abandonado devido à conclusão dos estudos, considerando-se os dados da pesquisa. Como professor, apenas vejo as salas de estudo em grupo sendo usadas com frequência em época de provas. Antes que alguém diga que os dados sobre iletrados no estado acentuariam isso, não se iluda por favor caso tenha em sua cidade grandes livrarias com uma cafeteria dentro. Observe ao longo dos dias quantos dos que sentam no café para conversar sobre seus livros são sempre os mesmos.
A gestora ambiental Andrea Marin, de 39 anos, gosta de livros e lê com frequência. Mas não vai a uma biblioteca desde que saiu dos bancos escolares. "A imagem que tenho é de que se trata de um lugar de pesquisa. E para pesquisar eu sempre recorro à internet", disse Andrea.
Lembro das viagens do Doutorado, lembro dos passeios por Belo Horizonte. Bibliotecas públicas em prédios bonitos, com praças lindas ao redor, convidando portanto quem mora ao redor para passar por lá. No Brasil, é fácil bibliotecas serem feias, o que não cria hábito de leitura comunitária, em que as pessoas trocam ideias já que passam várias pelo mesmo livro.
Enquanto folheava uma obra na Livraria Cultura do Shopping Bourbon, na Pompeia, zona oeste, diz que prefere as livrarias. Interessada em moda, ela procurava livros que pudessem ajudá-la com o assunto. "Nem pensei em procurar uma biblioteca. Nas livrarias há muita coisa, café, facilidades. E a biblioteca, onde ela está?", questiona. Dez minutos depois, passa no caixa e paga R$ 150 por dois livros.
Com o livro caro que se vende no Brasil e com a escassez de livrarias fora das capitais, combater esta ideia seria de grande importância. Prefeituras mantém bibliotecas municipais que, devido ao interesse nos bancos escolares, têm bastante literatura, nacional e estrangeira. Precisaríamos comprar menos livros visitando-as e utilizando-as com mais frequência. 
O estudante universitário Eduardo Vieira, de 23 anos, também não se lembra da última vez que foi a uma biblioteca. "Moro em Diadema e lá tem muita biblioteca. A livraria acaba mais atualizada", diz ele, que revela ler só obras cristãs. "Acho que nem tem esse tipo de livro nas bibliotecas." 
Por meio de estímulo às doações e de programas de visitação, eventos periódicos, seria possível mostrar ao estudante mencionado que as bibliotecas podem ser bastante atualizadas. Mais ainda: são o lugar onde descansam mais facilmente os clássicos em bom número, aguardando serem relidos, revisitados, reconhecidos. 

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