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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Uma mensagem de Natal com fome


É difícil manter sempre mensagens positivas sem deixar de ser realista. Dizia um amigo há algumas semanas: enquanto formos uma sociedade que saqueia, tudo fica mais difícil... 

O Coringa, em Batman: o Cavaleiro das Trevas, é descrito pelo mordomo do homem-morcego como simplesmente alguém que quer ver o caos. Sem as cicatrizes no rosto, a figura estaria bem perto de nós. 

Na semana passada, uma cantora na cidade fez um show de lançamento de seu CD. O acesso era gratuito, com possibilidade de comprar o CD a qualquer momento do espetáculo. Foi servido um coquetel antes, houve exibição de um video de suas apresentações anteriores, mas dizem em um ditado antigo dos ingleses que o diabo se esconde nos detalhes. Pois o problema ficou na ação beneficente. Cada um que fosse ao show, deveria levar um quilo de alimento não-perecível. No dia seguinte, a cantora divulgava em sua conta no Facebook que estava com muitos quilos de alimentos vencidos. Poderiam ter ido ao show sem levar comida, mas preferiram deixar a quem menos tem o que comer o risco de ficar doente. Foram a um show beneficente vendo gente como lixo. 

Na mesma semana, houve um grande tumulto no centro da cidade. Foram suspeitas de arrastão que até hoje estão mal explicadas para muitos, porém enquanto eu estava em frente ao shopping alguém divulgava pelo telefone que já havia três mortos nos tumultos, com lojas depredadas. A pessoa estava há quilômetros dos supostos fatos mas não se importava em transmitir o que não sabia se era verdade. Segundo a polícia, alguém aleatoriamente teria gritado "Arrastão!" provocando a gritaria e a correria, sem qualquer razão aparente para o grito. 

É difícil, muito difícil enfrentar problemas dessa natureza, mas sempre pode ser mais profundo o obstáculo que temos. Em um processo por compra de votos, o governador do estado foi condenado mas seus aliados comemoraram porque ele nem foi preso nem perdeu o mandato. Não importa que foi atestada a culpa, mas apenas o tamanho da pena: R$ 10.000,00 (dez mil reais). Um dos homens mais ricos do estado foi condenado a isso. Não é de modo algum uma acusação a sua riqueza, que a ninguém cabe fazer voto de pobreza como obrigação, mas não foi aplicado qualquer critério de proporcionalidade. 200 famílias teriam recebido ovinos em troca de votos. Quando divide-se o valor, ficam infelizmente 50 reais. Infelizmente, porque a crueldade dos julgadores foi imensa, afinal este é o valor que sempre se comenta que tem o voto no sertão do estado. Foi como garantir a legalidade do ato, já que no julgamento disseram que se ele não estava diretamente ligado, não comprava diretamente votos, então não seria tão grave. A irracionalidade do mal não depende de multidões ou de quilos de comida, já não se esconde nem alega verossimilhança.

Parece que já está bastante grande para o final do ano? Um ano em que tantos ministros caíram em poucos meses, em que tantas CPIs foram enterradas? Temos mais. Como medida cautelar, o Supremo Tribunal Federal suspendeu o poder de fiscalizar os atos dos juízes que vinha tendo o Conselho Nacional de Justiça. Tudo que funcionava para garantir um controle externo eficiente sobre o Judiciário está desmoronando, enquanto ministros do STF não se preocupam em explicar mas reconhecem o recebimento de centenas de milhares de reais relacionados a um caso sob investigação do CNJ.

Agora parece que não pode ficar maior? Sempre pode. Onde se encaixa uma mensagem de Natal no meio de tanta banalização do mal? 

Garth Ennis escreveu uma das minhas séries em quadrinhos preferidas, Preacher. Em uma história cheia de niilismo, carregada de ateismo, violência extrema, um dia o personagem principal explicou para a namorada porque ainda tentava encontrar justiça no mundo. Após ser espancado por parentes, seu pai o segurou quando criança, quando estava desabafando, querendo se vingar dos parentes que o haviam torturado tanto. Seu pai respondeu "Meu filho, bandidos já existem demais, mais do que o mundo precisa. Quem sabe disso não tem alternativa a não ser fazer parte dos mocinhos". 

Toda busca por razão no mundo passa a ser um ato de rebeldia, todo esforço para que a vida faça sentido, por si, já é um ato de luta, criar um filho para ser boa pessoa vira um gesto revolucionário. Se é possível saber que há tanta banalidade no que se faz contra a humanidade, fazer o mesmo de modo consciente de que seja possível agir diferente é ainda pior. Então, ficamos sem alternativa a não ser procurar a coisa certa, seja lá onde ela esteja.

Há algumas décadas, seria impensável que em qualquer lugar do Ocidente você pode ler esse texto. Nem mesmo se pensaria que haveria milhões de pessoas sabendo ler no país. Muito menos que a classe média estaria crescendo tanto, podendo consumir e, com isso, cobrar mais. Mais: que negros, homossexuais, mulheres, pessoas com deficiência poderiam se expressar e ser ouvidos. Se diante de tantas conquistas alguém ainda resmunga, os pessimistas são vítimas dos fatos imediatos, escravos do presente, sem pensar no que já se conquistou nem na maior virtude do que está por vir. E a maior virtude é que não se conhece o futuro. Não sabemos o que nos aguarda, como não se sabia antes das conquistas que mencionei que elas sequer eram possíveis, apenas se tentou, tentaram muito, até que apenas depois de um bom tempo se podia constatar as mudanças. Peixes não se preocupam com a água, não existe nada além dela. Quando sabemos que há mais o que fazer, o mundo já começa a não ser mais o mesmo.

E se as tarefas para um ano novo de lutas parecerem quixotescas lembremos que o aniversariante do Natal começou tudo com apenas 12 seguidores e é lembrado até hoje. Que saibamos então que mensagens transmitir para aqueles que nos seguem por Twitter, Facebook ou onde quer que seja. Que possamos assumir mais e mais responsabilidades, porque assim nos distinguimos do que se espalha por aí. E se parecer um mar de lama, que saibamos boiar sem nos afundar nele.

Feliz Natal a todos.

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