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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Mais uma Bienal da Edufal aconteceu

Há dois anos, publiquei sobre a Bienal Internacional do Livro de Alagoas passada. No último domingo, foi encerrada a V edição. Já são 10 anos mas, misteriosamente, é fácil perceber uma sensação geral de que seria a segunda, não a quinta.

Acontece que antes eram feiras de livros em um clube da cidade, espaço apertado, mais quente do que o atual Centro de Convenções e sem área para palestras, oficinas, entre outros eventos. O progresso espacial foi enorme, mas é preciso refletir sobre o que ainda precisa ser aperfeiçoado.

A Editora da UFAL merece os parabéns, pois além de organizar o evento contou com mais de 200 lançamentos em diversas áreas, além de ceder seu estande e o café cultural para muitos outros autores. Percebam aí um grande problema: fora a Edufal, a presença de outras editoras tem sido cada vez mais tímida, sem lançamentos próprios em seus estandes, sem sessões de autógrafos. Nos estandes de faculdades, ocorreram eventos paralelos, lançamentos de livros, palestras para pequenos públicos mas para as editoras ficaram áreas amplas mas melancolicamente voltadas apenas à venda de seus títulos. Se faltaram editoras, e aquelas que apareceram mal se portaram como tais, o grande número de livrarias dificultou que se contasse com preços mais interessantes. 

Dentro do castelo de livros

Lili, John e minha sobrinha Letícia
Sara










Uma virtude trouxe consigo um problema. 
Era flagrante que por todos os lados havia um grande esforço pela formação de novos leitores. Destaco os contadores de histórias, com especial atenção para duas felizes surpresas que tive. Estava muito interessante a área infantil no primeiro andar, com contadores de histórias apresentando espetáculo em um castelo de livros (fotos acima e ao lado). A outra alegria foi acompanhar Sara (foto acima) lançando e contando histórias do seu livro durante todos os dias da Bienal. Enquanto a equipe ao lado se alternava ela permanecia, com participação especial de um simpático tigre.


Onde algo tão simpático poderia ter algum problema? Sendo voltada para crianças (o que sempre é algo nobre e necessário), levadas principalmente pelas escolas, seus pais continuam sem estímulo contínuo à leitura. É fácil não perceber isso quando já lemos continuamente, estudantes, advogados, professores, escritores. Porém, em casas sem bibliotecas nem estantes de livros manter os filhos lendo por prazer, não por imposição da escola, torna-se uma dificuldade. As atividades voltadas para adultos ficavam em salas acarpetadas que tentavam matar quem tinha alergia a poeira ou em um auditório de vidro com muito barulho invadindo as apresentações, exceto pelas apresentações no auditório maior de convidados especiais.
Era possível perceber uma certa lacuna no evento. Afinal, foi aberta a Bienal como em homenagem à Itália. A convidada estrangeira era francesa, morando no Brasil há muitos anos. Exceto por um espaço para a Casa Dante Alighieri (pouco visitado e aproveitado, quando comparado aos serviços que oferece), não havia mais nada italiano. O aspecto internacional da Bienal aparecia também pelos caros e de atendimento mal humorado mini livros vendidos por peruanos que pareciam gostar tanto do que vendiam que não queriam que ninguém comprasse. 



Pude prestigiar diversos eventos interessantes. O caráter acadêmico, se não era voltado ao grande público, unia mais interesses em comum. Alguns casos foram os lançamentos de livros coletivos, como "As faces da segurança pública e dos direitos humanos em Alagoas", "Índios de Alagoas: memória, identidade, sociedade" e a palestra de Marion Aubree sobre seu livro "A mesa, o livro e os espíritos" (acima, da esquerda para a direita). Infelizmente, não pude estar presente a boa parte dos demais eventos. Eram muitos e contínuos. A inovação de espaço gastronômico, com boas oficinas do SENAC é algo para ser ampliado, mas com livros voltados ao tema tendo espaço semelhante.

Eu, no Estande da Nova Livraria.
Um aspecto em que a Bienal ainda precisa amadurecer é o de Feira de Livros. Afinal, tem exposição, lançamentos, mas o contato de autores locais com editoras e distribuidoras continua sendo repleto de mistérios. Consegui, por ir quase todos os dias, às vezes mais de uma vez em um mesmo dia, encontrar na Bienal dois distribuidores para meu livro na região Sudeste e encontrei um novo ponto de vendas em Recife, a Livraria Recife na UFPE. Estavam todos se apresentando como livreiros, não como distribuidores para livreiros. Foi preciso perguntar de um por um para encontrar essas possibilidades. Considerando a simpatia dos  distribuidores que conheci, teria sido muito interessante um espaço na programação para trocarem ideias com autores, um almoço talvez. Desde que não fosse oferecido pelos serviços de alimentação locais, pois comer na Bienal, exceto pelas oficinas do SENAC, era difícil de engolir.

Um aspecto que penso que a organização não tem como mexer, porque depende de cada expositor, é a falta de amor pelo que se está fazendo. Era muito comum o tédio, o cansaço e o péssimo humor de vendedores nos estandes. No da própria Editora da UFAL, uma vendedora se recusou a procurar dois livros para mim, sendo que um deles era de uma autora cujo lançamento estava acontecendo naquele momento em outro estande. Precisei voltar em outro dia para comprar, apontando para ela onde o livro estava, e o outro autor comprei pela internet. Ele mora na mesma cidade, mas a escassez de livrarias e o péssimo atendimento por aqui faz com que autor local, na semana da Bienal do Livro, apenas tenha sua obra adquirida on-line. Sobram vendedores, faltam livreiros.

São muitas mudanças necessárias. Agora, que a Bienal já tem 10 anos, pode enfrentar seu amadurecimento melhorando aquilo que já faz tão bem e corrigindo falhas que qualquer grande evento traz consigo. Parabéns a cada leitor, autor, vendedor, livreiro, produtor que participaram, entre os 190 mil que passaram por lá durante uma semana em que Maceió teve livrarias. Por falar nesse número de frequentadores, como bem lembra o amigo Golbery Lessa, 20% da população de Maceió esteve na Bienal, o que ressalta que a carência de espaços para atividades culturais-artísticas na cidade não apenas é grande mas tem público para quem neles quiser investir.

1 comentários:

Antiguidades e literatura disse...

Os lançamentos daí tem qual foco? Geralmente o foco de uma região determina mais até mesmo se o evento vai adiante ou não. Claro que literatura não é negócio, mesmo que, as editoras vejam assim, as pessoas se apegam a certas obras.

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