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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Lula, doente como nossos tempos

São tempos difíceis para sustentar ideologias. Que o diga um símbolo da esquerda brasileira nas últimas décadas quando se soube que está doente com câncer. Lula foi diagnosticado como tendo um tumor na laringe, que exigirá que se trate por meses, tendo começado a quimioterapia  nessa semana. 

O maior problema foi que, surpreendentemente, em redes sociais, foi imediato que centenas gritassem, xingassem, latissem que ele deveria se tratar no SUS para dar o exemplo aos trabalhadores que o admiram. Triste, muito triste. 

Não sabem que o conceito de hospital público e privado não combina diretamente com o SUS, que é um sistema público de tratamento em hospitais privados. Logo, estar em um hospital público ou privado seria secundário. Mais importante, é curioso que tantos tenham guardado preocupações tão grandes com a saúde pública do país até o dia em que Lula adoeceu. Seria mais ético dizer antes.

Não estamos falando de um ditador, mas de um ex-presidente de uma democracia. Surgir subitamente tamanho ódio leva a lembrar das ideologias "de guarda-roupa" de que nos alerta Bauman. Ele diz que vivemos tempos em que é possível sacar ideias, campanhas, gritos a qualquer momento para devolver à gaveta no dia seguinte, sem qualquer compromisso. Por isso não percebem a falta de compaixão com alguém que está sofrendo, importa apenas encenar a suposta histeria ideológica.

Na mesma semana, um grupo de idiotas tentou derrubar a jornalista Monalisa Perrone enquanto falava ao vivo, para o Jornal Hoje, sobre o último boletim médico de Lula, em frente ao hospital. O que o grupo queria? Nada, absolutamente nada. Era diversão inócua para eles, com humor tão doentio quanto misturar câncer e debate sobre saúde pública nacional. Era a segunda vez na semana que o grupo interrompia uma transmissão sobre o tema.

Dentro de alguns meses, Lula provavelmente estará bem, torcemos para que assim seja. Enquanto isso, a sociedade continua adoecendo de falta de bom senso e piedade diante da dor alheia. Como diria o Mestre Cazuza no Blues da Piedade, que nos deem grandeza e um pouco de coragem para aguentar a banalização da vida e da morte com que convivemos em notícias assim.

1 comentários:

Ana Lua disse...

Meu amigo, lavei minha alma ao ler este protesto!
Também fiquei indignada com tamanha insensibilidade e ignorãncia, no sentido literal da palavra!
Parabéns!
Ana Luiza Fireman

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