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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Ensino, Pesquisa e Extensão






Uma instituição de ensino não está, em hipótese alguma, isolada da sociedade na qual está inserida. Elas estão em constante interlocução, numa relação confluente e dialética, a partir da qual a sociedade se “alimenta” da instituição de ensino e esta se “alimenta” da sociedade. Isto é, há uma troca de saberes e experiências em que as “setas” se cruzam num movimento bilateral de ir e vir, nos dois sentidos:

INSTITUIÇÃO DE ENSINO

Em relação à Instituição de Ensino Superior (IES), como não poderia deixar de ser, esta também está em constante diálogo com as comunidades nacional, regional e local. Por trás desse diálogo, está o Princípio da Bilateralidade.

Sob a égide desse Princípio, a IES mantém uma relação de “mão-dupla” com a sociedade na qual está inserida, compartilhando experiências e saberes (acadêmico e popular), em interação com os grupos sociais num processo constante de re-significação.


Atenta à sociedade, tanto em relação às novas exigências do mercado de trabalho, como em relação às suas necessidades materiais e humanas, a IES direciona seus projetos, ações e atividades no sentido de trazer respostas e/ou caminhos possíveis para as problemáticas, tensões, lacunas e conflitos percebidos nessa sociedade. É nesse sentido, que o Princípio da Bilateralidade vai alicerçar uma das atividades-base da IES, a Extensão.

Elucidar a atividade de Extensão não é tarefa simples, uma vez que há divergências e controvérsias no contexto acadêmico quanto à sua definição. Sem querer esgotar o tema e ao mesmo tempo sem apontar verdades estanque e absolutas, traduziremos a atividade de Extensão da seguinte forma: é uma atividade político-social, por meio da qual a IES mantém uma comunicação com a sociedade da qual faz parte, levando respostas para os seus problemas e necessidades, compartilhando experiências e conhecimentos adquiridos, buscando participar ativamente do processo de (re)construção dessa sociedade, bem como coadunando a teoria à prática, na medida em que, no contexto social, experimenta e põe em prática as teorias suscitadas nas atividades de ensino e pesquisa, o que é fundamental para a formação profissional, independente da área.

Não se trata, pois, de filantropia, uma vez que a IES também se “alimenta” da sociedade. Com as atividades de extensão está a preocupação em formar profissionais/cidadãos voltados para o social, com sensibilidade coletiva, capazes de atuar profissionalmente de forma transformadora, percebendo e sentindo as necessidades sociais, colocando-se como sujeito histórico e participativo no processo de re-significação da sociedade e dos discursos ideológicos responsáveis pela manutenção do status quo, fonte permanente de exclusão social.

Isso porque, por meio da Extensão, a IES leva o corpo discente ao contato com os grupos sociais desfavorecidos, rompendo o “cordão” de isolamento, despertando a consciência da alteridade. É exatamente o descobrir do “outro” que possibilita a verdadeira descoberta de si enquanto indivíduo e sujeito inserido em uma sociedade; e, com essa experiência, vem a percepção do seu lugar dentro dessa mesma sociedade.

Todo esse processo é condição sine qua non para a construção da cidadania. Daí resulta, pois, a imprescindibilidade da Extensão. Com esse contato constante com a sociedade, a comunidade universitária torna-se sensível às questões sociais. Na busca por respostas, ela se dedica à investigação científica, à atualização do conhecimento. E, assim, a atividade da Extensão caminha de “braços dados” com a Pesquisa.

Como cediço, o conhecimento, de qualquer que seja a área, não pode permanecer estagnado. A IES deve, então, ser espaço profícuo para a pesquisa, uma vez que é por intermédio desta que ressignificamos o saber científico, atualizando-o de forma a atender às transformações e às necessidades sociais, nos aspectos natural, material e humano.

Por outro lado, hodiernamente, não há mais essa dicotomia entre o profissional que se dedica à pragmática e o que se dedica à Pesquisa. Hoje, o profissional que está inserido no mercado de trabalho, lidando com os desafios da prática, é o mesmo que, numa Pós-Graduação, por exemplo, “recicla” o conhecimento. Ou seja, não há mais o mito de que o pesquisador é um sujeito estranho, isolado e inatingível. Dessa forma, o universo acadêmico rompe com sua “bolha” e passa a manter uma interlocução com a comunidade e o mercado de trabalho.

Em razão disso, é fundamental despertar no graduando habilidades e aptidões para o processo de reconstrução e reciclagem do saber científico, para que este se torne um profissional, independente da área, preparado para a atividade da Pesquisa. Dentre essas habilidades, há a denominada “sensibilidade social”.

Até o momento, constatamos que Extensão e Pesquisa são atividades que caminham unidas, numa relação dialógica e dialética. A Pesquisa se alimenta da Extensão, uma vez que por intermédio desta a comunidade universitária percebe as  carências e demandas sociais; a Extensão se alimenta da Pesquisa, uma vez que por meio desta a comunidade universitária também traz um retorno para a sociedade através de respostas para as problemáticas identificadas. E assim essas duas atividades se inter-relacionam e se confluem.

Concomitantemente à Pesquisa e à Extensão, há a atividade de Ensino. Não o Ensino a partir da reprodução de conhecimentos pré-concebidos. Não o Ensino através do processo de memorização de conceitos e teorias estanque, mas um Ensino a partir do qual levamos o corpo discente à (re)descoberta do conhecimento, incentivando-o a pensar criticamente o conteúdo, bem como à aprendizagem continuada e autônoma.

Não o Ensino distante da realidade. Mas um Ensino que permite a comunicação entre teoria e prática, e não-dissociado da práxis humana, do contexto sócio-cultural-histórico do qual fazemos parte. Não um Ensino dogmático, absolutista; mas que parte da consciência de que para cada tese existe uma antítese. Um Ensino alicerçado na dialética. Não interdisciplinaridade, através do diálogo entre as diversas disciplinas que compõem a matriz curricular do Curso e as áreas de conhecimento afins, possibilitando, ao discente, analisar o objeto de estudo a partir de prismas diferentes, fomentando um saber holístico e não-isolado.

Destarte, a atividade de Ensino não pode ser construída de forma distante da Pesquisa e da Extensão, uma vez que estas duas últimas são essenciais para pôr em prática um processo de ensino-aprendizagem segundo as observações supracitadas. Para promover um Ensino que transcende os limites da sala de aula, articulando-se com os grupos sociais.

Por isso, a atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), posta em vigência em 1996, desenhou, como uma das diretrizes base para a Universidade, o Princípio da Indissociabilidade entre Ensino, Pesquisa e Extensão. Segundo tal Princípio, a Universidade deve investir nessas três atividades, de forma que uma não esteja dissociada da outra. As três, Ensino, Pesquisa e Extensão, devem ser fomentadas de forma articulada e inter-relacionada.

Por outro lado, o Decreto 5773, de 9 de maio de 2006, em relação às Instituições de Ensino Superior, estabelece:

Art. 12. As instituições de educação superior, de acordo com sua organização e respectivas prerrogativas acadêmicas, serão credenciadas como:
I - faculdades;
II - centros universitários; e
III - universidades.

Nesse sentido, em relação à modalidade faculdade, esta não tem a obrigatoriedade de cumprir com a indissociabilidade das atividades de ensino, pesquisa e extensão, podendo-se dedicar, assim, exclusivamente às atividades de ensino. Todavia, acreditamos que a atividade de ensino deve estar comprometida com a formação de profissionais e cidadãos preparados para a reconstrução de uma sociedade mais justa e igualitária, como sujeitos de direito, participativos e politizados, bem como com o desenvolvimento regional, atendendo às necessidades da comunidade na qual está inserida.

Dessa forma, independente da modalidade de credenciamento, se faculdade, centro ou universidade, a nosso ver, uma IES deve visar a uma formação profissional que passa por um ensino não-dogmático e não-estanque, levando o discente ao questionamento e à reflexão constantes, posicionando-se quanto aos discursos ideológicos, despertando o cientista social por meio de um processo de ensino aprendizagem construído a partir do diálogo, do debate e da leitura, da pesquisa acadêmica e do contato com a sociedade. Destarte, a IES deve estimular atividades de pesquisa e extensão a partir de projetos e programas, só assim o ensino superior cumpre efetivamente com sua função social.

REFERÊNCIAS

ABREU, M.C; MASETTO, M.T. O professor universitário em aula: práticas e princípios teóricos. 10. ed. São Paulo: MG Editores e Associados, 1990.

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional).

______. Decreto 5773, de 9 de maio de 2006.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 15. ed. São Paulo : Paz e Terra, 2000.

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