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sábado, 17 de setembro de 2011

PIG, reforma política e o "deus ex machina" de cada um de nós

Na literatura grega, era comum que autores que não sabiam como concluir suas histórias incluíssem uma descida de um dos deuses para intervir, resolvendo os problemas dos homens. Isto gerou a referência, que se espalhou nas Ciências Humanas, nas artes etc., à expressão "deus ex machina", assim, em minúsculas mesmo. Porque não é a divindade que importa, mas você ter alguma coisa de fora da história que vai aparecer para resolver tudo subitamente. 

Se grandes escritores puderam, e podem até hoje (agora também em filmes, novelas e onde tiverem uma narrativa), na política isso já caiu no dia a dia. É o caso de argumentos envolvendo a reforma política no Congresso e falar mal do PIG, do lado da esquerda petista brasileira.

A expressão, cunhada por Paulo Henrique Amorim em seu blog Conversa Afiada, refere-se ao "Partido da Imprensa Golpista". Seriam todos os órgãos da mídia que, segundo aqueles que costumam usar a expressão, vivem para derrubar a presidenta Dilma e que antes dedicavam-se a derrubar o hoje ex-presidente Lula. E parece que o PIG é forte, pois os ministros da Dilma estão caindo como baratas após uma dedetização... Mas vamos voltar ao assunto. Sempre que há uma crítica ao governo, basta dizer que é obra do PIG e já não se precisa mais falar no assunto. Desqualifica-se quem fala para que não seja ouvido. 

Nesse caso, o "deus ex machina" PIG é argumento perigoso. Ele foi crescendo e hoje é fundamento para o PT defender o controle da mídia por um órgão regulador da imprensa. Em qualquer país democrático com instituições minimamente sérias, a iniciativa parte dos próprios jornalistas, como o conselho de ética da advocacia decorre da OAB que, por sua vez, foi instaurada por advogados. Tem sido assim com conselhos regionais profissionais diversos também. Quando o Estado se preocupa com isso diretamente apenas após o Mensalão, algo de errado deve existir... mas logo alguém dirá que sou parte do PIG e fica por isso mesmo. 

Por outro lado, com medidas mais prudentes, tem-se defendido a reforma política. A medida mais recente a ganhar fôlego em discussões sobre o assunto é o voto distrital. Não é difícil encontrar pelo Google detalhes sobre como ele funcionaria. O grande problema é que enquanto debatemos uma mudança que, talvez, seja na modalidade mista ou não, desmantele currais eleitorais, dificulte parlamentares de carona nos votos de celebridades, entre outros problemas, quem teria que aprovar a medida seria a gestão atual do Congresso Nacional, que depende dessas mazelas. É preciso eleger outros representantes para que algo assim seja aprovado. Sem esta medida prévia, o debate pode ser prejudicado e tornar-se mais um "deus ex machina" da política brasileira, como foi por décadas falar em Parlamentarismo como solução para todos os males, à Direita, e falar na revolução, à Esquerda.

É assim que frases de efeito proliferam em diversas condições, guiando bons debates, grandes reflexões, cujos pressupostos para surtir efeitos dependem de uma intervenção quase mágica de tão poderosa, súbita e imune a erros. É como criticar argumentos de esquerda como apenas sendo "ad hominem" enquanto se é chamado pela esquerda de "PIG". Não há espaço para ideias entre rótulos, verdades absolutas baseadas em talismãs discursivos de poucas palavras. São momentos em que não se tem mais como argumento de autoridade a certeza de que alguém visto como importante já falara sobre aquilo, mas a certeza de que existe como resumir em poucas palavras o assunto.

É como quando alguém com preguiça mental grita "Cadê os direitos humanos?" diante da primeira explosão de violência nas ruas e logo em seguida se aquieta no sofá, pois já se sentiu contestador com poucas palavras. Se é possível por em dúvida os "direitos humanos" (como se pertencessem a alguém especificamente, não a todos os seres humanos, inclusive quem gritou assegurando o direito a gritar...), dizer que põe em dúvida basta. No cotidiano, é aquele instante em que gritamos "a culpa é dos governantes", "do sistema", "dos outros", "dos gays", "dos nordestinos", "do capitalismo", "das forças do atraso"... escolha o inimigo abstrato que preferir e ele será o inferno que resolve todos os problemas.

Não são poucos os palestrantes que se acomodam com palavras de ordem, clichês, que na verdade pouco respondem às dúvidas levantadas pela plateia. Porém, as plateias fazem cada vez menos perguntas. Quem critica, vai sendo visto por essa ou aquela expressão que desqualifica em vez de contribuir para a autocrítica de quem falava. A falta de debates facilita que cada um fale apenas para aqueles que comungam da mesma visão de realidade. Assim, todas vão ficando cada vez mais afastadas da própria realidade.

O que dizer então das verdades absolutamente bem intencionadas? Quem nunca ouviu que a Educação (assim mesmo, com maiúscula) é a solução para todos os nossos problemas? Que quem abre uma escola fecha uma prisão entre outras expressões imunes a erro? Já tivemos presidentes com os mais diversos currículos, já usamos como exemplos pedagógicos países que entraram em crise, mas repetir "ad nauseam" que o problema é a falta de Educação resolveria tudo. Doutores sobrevivem desempregados enquanto deputados federais com dificuldade provam saber ler. Em Alagoas, continuamente fala-se que a questão é a falta de Desenvolvimento. Em outros estados, a Poluição, a Pirataria, essa ou aquela família no poder... e de repente 10% do PIB para isso ou para aquilo e tudo estaria resolvido no país. E de repente recuperar o dinheiro da corrupção resolveria tudo do Brasil. Mas tudo sempre vem de repente nessa lógica, para problemas que foram construídos durante toda a história da árvore genealógica de cada um.

Quando Sócrates muitos séculos atrás explicava como entrar em um debate, a ideia era simples para compreender sem que sua profundidade fosse perdida. O primeiro passo era saber perguntar, questionando as próprias convicções mas respeitando as respostas que as perguntas trouxessem, aprendendo o tempo inteiro com o conhecimento contestado, não apenas contestando por contestar nem rejeitando por rejeitar, mas sabendo ouvir para ir adiante. Processo dialético do mais rudimentar, mas que previne contra os "deus ex machina" de cada um.

Se perguntássemos mais sobre os fundamentos do que ouvimos em vez de apenas impor palavras de ordem, talvez problemas assim não existissem. Mas talvez isso também seja apenas meu próprio "deus ex machina" para lidar com o problema.

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