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domingo, 4 de setembro de 2011

Enchendo a vida urbana de cores, ganhando a cidade de volta



O muro cinza acima é a lateral esquerda de um viaduto de Maceió. Passei por ele durante semanas sem saber se este grafite rosa anônimo já estaria lá.  Se não fosse por um engarrafamento, eu não teria parado para olhar ao lado. Acontece que sem esta imagem, seria apenas a lateral de alguma coisa igualmente anônima. Ou será que faz alguma diferença os nomes de políticos que dão aos viadutos?

Demora normalmente muitos anos para que artistas de rua, sejam eles dançarinos, poetas, pintores incluam seus nomes em seus trabalhos. É um silêncio do nome porque a identidade já está presente, na arte. Pelo movimento abaixo do viaduto, acredito que o pintor tenha usado a madrugada. Por ser uma área em que viaturas de política passam constantemente durante as noites, deve ter feito em pouco tempo. 

A Revista Vida Simples deste mês homenagou outro artista brasileiro que omite seu nome mas não se omite, Mundano. Seus trabalhos podem ser vistos por sua conta no Flickr. Na matéria da revista, mostram que ele tem se especializado em ocupar espaços cinzas da cidade, mas foi mais longe. Mundano pinta carroças de reciclagem de papelão. Foi para palestra do TED em Belém e se ofereceu para pintar os barcos também. É o Projeto Cidades Recicláveis, em que contribui para dar identidade a personagens fundamentais da sustentabilidade que ficam invisíveis diante da "feia fumaça que sobe, apagando as estrelas", da "dura poesia concreta" das esquinas das grandes cidades. Dá um gostinho bom para olhar para o cinza amargo ver quantos outros ativistas gráficos (gosto mais assim do que de grafiteiros) seguem Mundano no Twitter.

Não precisa ter todo o talento de Mundano, mas uma boa ideia como ponto de partida para desenhar nas ruas. Sobram nos países isso. Em Strasbourg, na França, há o Démocratie Créative. Pintam, por exemplo, raias de corrida em ruas da cidade. Pintaram o garrafão da quadra de basquete diante de latas de lixo, entre outras brincadeiras. O esforço pela reapropriação pelas pessoas do espaço público, deixando que voltem a brincar nas cidades, foi reconhecido pela prefeitura, que, como também lembra a Vida Simples, fez uma parceria com os ativistas até então não identificados e agindo ilegalmente (almas sebosas poderiam interpretar como vandalismo o que fazem) para que dessem continuidade. A prefeitura quer que as pessoas andem mais pelo centro da cidade sem usar carros. Viu ali uma boa ideia.

Podemos voltar para o quadro a céu aberto que fotografei lá no começo? Se estivesse em uma galeria, talvez mais dos mesmos pudessem ver e apenas tivesse sentido amarrado a uma moldura por umas semanas. O tédio do congestionamento pôde diminuir um pouco, talvez mais gente tenha aberto a janela do carro por uns segundos sem medo de assalto e abrindo mão do ar-condicionado só para fotografar. Alguém fez mais gente voar e ganhou a rua.

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