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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Desfazendo a cara de paisagem

Há muitos anos ouço esta expressão, "fazer cara de paisagem", quando alguém se refere a olhar sem ver nada, acostumado com a vista já ignorando o que está à frente. É boa metáfora. Afinal, a paisagem vem em olhar para o horizonte sem detalhes, só como algo amplo para ser apreciado. 

A "cara de paisagem" aparece com o disfarce de inocência quando nos acostumamos a vários problemas de nosso dia a dia. Muito recentemente, em Alagoas, fugitivos de um presídio invadiram uma sala de aula de um concurso que se realizada na UFAL, ao lado do presídio. Por redes sociais, quando surgiu a manchete "bandidos invadem concurso na UFAL" a grande pergunta era se em Maceió ou em Arapiraca. Foi em Arapiraca, mas a "cara de paisagem" coletiva já estava tão endêmica que esquecemos há quantos anos os presídios têm ao lado instituições de ensino o que facilitaria tanto a fuga, escondendo-se em tantos prédios, e a arrecadação de recursos para sustentá-la, tendo tanta gente para assaltar, sequestrar etc. E pensar que quando eu estudava Direito e ia almoçar no prédio de Engenharia o presídio já era a vista que tínhamos, com apenas uma cerquinha de arame farpado e uma ficha criminal limpa nos separando...

Porém, quando de repente começam, apressados e restritos à vida on-line, alguns protestos contra os presídios ao lado das universidades, corremos o risco de esquecer de caras de paisagem ainda mais graves. São aquelas que nos fazem esquecer quem somos, confundidos com o que nos cerca. Estive na última semana no IX Congresso Nacional de Direito Público, evento em que pude fazer sessão de autógrafos do meu Manual de Metodologia. Muito grato aos amigos que gentilmente abriram este espaço para minha obra, porém um dos palestrantes (cujo nome cabe deixar de mencionar para que o ato-falho bem intencionado não perturbe a memória da boa apresentação) fez toda a plateia aplaudir muito animada com uma declaração que me incomodou. Ao se referir a Alagoas, tudo que conseguiu dizer foi "que tem as mais bonitas praias do Brasil". Quando um amigo o anunciou, ressaltou em tom de brincadeira os almoços em que estiveram em bons restaurantes, as boas conversas, nada daquilo encantou. Uma gastronomia variada, o filé que decora as paredes do Centro de Convenções e cuja tecelagem apenas pode ser encontrada no estado, a feira repleta de empreendedores no térreo do mesmo prédio, nada nada além de água e areia. 

Por todos esses anos morando na cidade, tem sido um mantra do conformismo. Diante de mil indicadores sociais de miséria e violência, alguém encerra o debate com "mas temos as mais lindas praias do país...". Mais um momento em que a "cara de paisagem" ajuda a não perceber que por trás do cartão postal que preenche os olhos há trabalho infantil vendendo amendoim, estrangeiros com meninas que deviam estar na escola, água poluída sem multa a quem a polui, sem contar tudo que será visto se virar o pescoço após o banho de mar e dar de cara com o asfalto.

Para desfazer a cara de paisagem diante do que nos cerca é fácil. Basta abrir os olhos.

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