Translate

sábado, 16 de julho de 2011

Um daqueles dias em que é bom envelhecer

Faz apenas dois dias que nasceu a minha primeira sobrinha, Leticia, filha da minha irmã, Lili. Nesses trinta e poucos anos que nos separam, Leticia e eu, haverá muita coisa para explicar em pouco tempo. Leticia não está disposta a colaborar a explicar nada. Nos dois momentos em que nos encontramos tivemos  pouco o que conversar, mas funcionou. Na primeira ocasião, ela não abriu os olhos. Ajeitava os trinta e poucos centímetros e quase quatro quilos de corpo entre minhas mãos, a cabeça na palma da direita, os pés deixando sobrar espaço no cotovelo. Ela percebeu que cabia entre os braços e eu que ela não abriu os olhos por algo simples, porque não precisava.


No segundo momento em que nos encontramos, ela já acomodada aqui em casa, novamente teimava em não abrir os olhos. Na primeira ocasião, dormia. Na segunda, não me convenceu. Era dia, pouco mais que meio dia, então mudei a posição. Curvei meu corpo para fazer sombra e seus olhos abriram. Ainda pouco, acostumando-se com a luz. É assustador imaginar quanta informação chega subitamente naqueles olhos que por meses não precisavam abrir na escuridão confortável como feto. Quando o barulho no hospital era constante, com tantos conversando no quarto ao mesmo tempo, ela apenas virava o corpo para o outro lado e voltava a dormir. É bom poder fechar os olhos enquanto ainda é fácil fazer isso.

Por outro lado, seus pais não dormem noites inteiras. E isso é tão comum entre os pais. Afinal, é o momento em que percebemos que começamos a envelhecer. Alguém pode vir com a ideia desagradável de que começamos a envelhecer quando nascemos. Não me convence. Para mim, começamos a envelhecer quando nós não importamos mais tanto quanto aqueles a quem nos dedicamos. Quando é possível sentir que seja necessário, completamente vital, esquecer de si por alguém por toda a vida. Alguém apressado diria que paixões são assim, mas paixões não acompanharão por toda a vida sem cobrar nada, sem pedir nada, apenas esta forma de dedicação permite isso, a dedicação que vem com o amor, como lembrava o amigo Rogério há alguns dias, e que quem se responsabiliza como pai ou mãe por alguém entende. Eu, ainda não entendo.

Eu convivo com a sensação. Sei que aquele choro quase inaudível é importante, porque para uma criatura daquele tamanho é o máximo ruído que consegue emitir. Sei que cada esticar de braço é um aprendizado de que o braço está ali, de tão frágil que ainda é o corpo. Sei pouco, mas só em procurar saber sobre alguém que nem percebe ainda que estou por perto, nada além de uma árvore fazendo sombra para que possa abrir os olhos, já é possível mais uma vez perceber o envelhecimento bom.

Mais uma vez, porque perceber isso começou a ser possível com outra pessoa com dias de vida, a mãe de Leticia. Os mesmos cuidados, a mesma observação, vinte e três anos atrás. Sabendo que ela não lembraria de nada que me encantaria naqueles primeiros meses, como com certeza acontece agora mais uma vez. Então, pensemos no que está ao redor e Leticia não viu.

Ela nasceu no dia do rock, apesar de não ser o ritmo preferido dos pais. Já terei muito o que ensinar de útil para ela nos primeiros anos de vida. No mesmo dia, um acidente aéreo deixou parte do Brasil mais triste, com muitas vítimas na queda de um avião. A seleção brasileira, mais uma vez, venceu com muitos gols sem convencer a torcida que há décadas ama odiá-la. O tempo passou na janela e não só Carolina, Leticia também não viu. O lado bom é que todos teremos esquecido todos esses fatos nas próximas semanas, mas ela estará entre os poucos que não se incomodará com isso. Não podemos mais escolher, com tantas informações soltas ao redor, quais são relevantes para nos preocupar. Leticia ainda pode.


Estará mais preocupada em descobrir, devagar, de quem é cada sombra, o que é cada cor, o que é uma cor em geral, por que deitam em um lugar quadrado quando ela não quer dormir e outra hora em um espaço retangular dos pais, quando ela quer descansar. Tudo lentamente, muito lentamente. É quando percebemos mais uma vez que vamos envelhecendo bem. Quando temos tempo para nos observar um pouco, quando podemos nos aproximar do tempo dos bebês.

1 comentários:

Rogério Brandão de Faria disse...

Amigo Sérgio,
Este post é espetacular. Tenha certeza que essas palavras surgiram do amor a Letícia, amor este que será maior a cada dia, a cada risada, a cada dor, a cada angústia, a cada segundo em que terá a honra de ter essa pequena em seus braços. A presença de uma criança em casa renova as nossas almas, nos faz mais crianças, nos faz ver um lado da vida ingênuo, puro, limpo. Um lado que buscamos esquecê-lo na busca constante ao "amadurecimento". Curta cada momento ao lado dela. Daqui há alguns anos, essa lembrança será impagável. Talvez saiba que não concordo com o lema "carpe diem" pois nos afasta da visão do futuro, fundamental pra nossa sobreviência digna. Mas, os momentos de amor, ainda que não recíprocos, devem ser vividos em sua magnitude, sem pensar no amanhã. Neste momento, Lucas está aqui comigo. Confesso, emocionado, que este simples momento, estará pra sempre em minha lembrança. Grande Abraço. Rogério.

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...