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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Férias escolares? Ocupe espaços.

Por redes sociais, é fácil encontrar quem diga estar sem nada para fazer por estar de férias. Mesmo muitos viajando, reclamam das cidades por onde passam e isso me lembra Rachel de Queiroz. Em O Quinze, a protagonista vive uma situação muito semelhante, mesmo no sertão e décadas antes da internet. Ela encosta a cabeça em uma estante de livros, olhando para uma janela e diz que está sem nada para fazer. De um lado, estes que encontrei têm uma rede mundial. Do outro, tudo que podem encontrar por meio dela mas que já está ao seu redor.

Falei há poucos dias sobre o serviço Catraca Livre, organizado por Gilberto Dimenstein. Toda semana, são destacados cursos, apresentações artísticas, eventos que sejam de baixíssimo custo ou gratuitos. Faltam serviços assim pelo país, mas sobram catracas livres pelo Brasil. Estudei com gente que apresentou um trabalho de Economia sobre turismo dizendo que lamentavam Maceió não ter espaço para turismo cultural. Então, vamos esclarecer isso por meio da ideia do Catraca.

Nossos aparelhos culturais públicos estão abandonados. Quando falo em aparelhos culturais, são as áreas públicas voltadas à vivência coletiva, a experiências próprias onde outros podem transitar, enfim, cinemas, museus, teatros, praias, praças, enfim, onde possamos guardar memórias novas. Acontece que em vez de aparelhos culturais os condomínios criam cada vez mais simulacros deles. Há pista de corrida, churrasqueira, "espaço gourmet" em muitos deles, privatizando espaços públicos. Como passam a ser extensão de casa, vão sendo cada vez menos usados no tempo em que nos deslocamos para o descanso. É preciso realmente procurar aqueles que são públicos.

Shopping Centers criam uma ilusão de espaço público por uns minutos. Até que percebemos que tudo ao redor não tem memória, é neutro para que caibam todos em qualquer momento. Além disso, como passamos por eles no cotidiano para compras rápidas, não faz sentido dedicar muito tempo a eles nas férias. É preciso recuperar o sentido da vivência coletiva.

Então, um bom caminho é procurar um curso rápido. Digitação pode ser boa ideia, mas não vai conviver com ninguém. Dança de salão, culinária, mecânica de automóveis, enfim, algo em que tenha mais gente para trocar ideias, para serem testemunhas de nossos erros e de quando eles estiverem desaparecendo. Se faltar dinheiro, universidades públicas costumam oferecer tantos cursos gratuitos de férias como atividade de extensão. Se procurar cursos on-line, já que há muitos gratuitos de curta duração, verifique se têm fóruns, bate-papo, enfim, ferramentas para que troque ideias. Já deve fazer algo semelhante com seu msn etc., mas pelo menos será uso on-line diferente.

É aí que chegamos ao encosto de cabeça do começo desta história. Sem dinheiro, pode encontrar um livro eletrônico gratuito facilmente e ler do início ao fim. De preferência uma coleção, para  que não desista do hábito quando o primeiro terminar e ainda tiver semanas de férias. Ainda sobraram horas do dia? Um concerto on-line no Youtube. Música após música, até o fim. Escrever nome de um músico, de um ator, de uma banda e assistir apresentações autorizadas que estejam disponíveis. Fica uma dica: minha banda favorita em Alagoas. Tem mais tempo? Visitas virtuais a museus do mundo. Escolha um e vá corredor por corredor, quadro por quadro, devagar. Eis a palavra-chave. Somos empurrados pela velocidade da conexão a correr, mas estamos sem pressa e devemos permanecer assim. Logo, quadro por quadro, música por música, página por página. O dia será curto e precisará de uma agenda, verá que saindo da rotina virtual para explorar novas possibilidades poderá precisar de um planejamento de city tour.

Verifique jornais locais pela internet para encontrar peças, recitais, exposições que estejam ocorrendo. Certamente, terá grupos locais ou de uma cidade próxima naquela semana com apresentação própria. Filmes de cineclubes costumam ser exibidos gratuitamente. Se não tiver, monta cineclube com filme de locadora reunindo amigos que também não tenham viajado nas férias. Pode até dizer que prefere baixar filmes. Quem conheço que faz muito isso só faz isso, baixar pois a compulsão que isto se torna impede que dê conta de assistir tudo. São acervos de centenas de títulos, às vezes, sem a devida paciência para dedicar duas horas a cada história. Então, melhor se deslocar, ver a rua, encontrar com outras pessoas, comprar um chocolate, uma pipoca diferentes, e pegar um filme na videolocadora para assistir em casa.

A revista Vida Simples falava há uns anos sobre a importância da banca de revistas. Era neste sentido. Se em vez de assinatura eu tenho que ir até a banca, posso descobrir novos títulos, conversar sobre minhas compras, conhecer gente, andar pela rua vendo movimento, enfim, ter muitos prazeres paralelos enquanto estou comprando uma leitura nova. É a mesma situação de esperar para comprar livros em uma livraria física (exceto quando o trabalho exigir pressa típica da internet...). Pode aproveitar e conferir de revistas acumuladas o que não leu, rever títulos, descobrir títulos novos, rodando sebos, bancas de revistas, livrarias pela cidade. Àqueles que reclamam da falta de livrarias em Maceió, um passeio pelos sebos do Centro da cidade pode necessitar de dois dias para ser eficiente, talvez até mais, com CDs, revistas, álbuns, uma variedade boa de produtos.

Mencionei praias antes. Uma por dia de manhã e terá variedade gastronômica, de moda, de qualidade da água (veja se sua cidade tem relatório de baneabilidade on-line. Maceió tem). Pode deixar passeios em bancas, sebos, museus locais nas tardes. Um museu rende uma tarde, por menor que ele seja. Ore para São Google e encontrará todos da sua cidade, mesmo os que não tenham site próprio. Se não encontrar telefone, vá lá e descubra quando está aberto para visita. Logo, quem sabe possa construir um serviço como o Catraca Livre na sua cidade.

Talvez o desafio seja se desligar de redes sociais durante as férias. Então, não se desligue mas varie na conexão. Pode ir para restaurantes, bares, onde houver rede wifi. Se usar a internet pelo celular, terá boa variedade de aplicativos para localizar redes ao redor. Assim, aproveita a rede local para falar com as pessoas sobre onde está, publicando fotos, divulgando pratos, enfim, não apenas estando online mas ocupando espaço virtual com seu conteúdo. 

Explore as redes sociais que usa e onde lamentaria da falta do que fazer. Fale sobre a praia onde foi, o museu que visitou, o que encontrou em um sebo, uma rua interessante em um bairro que visita pouco, uma praça que não sabia que existia, e muita gente estará estimulada para trocar ideias sobre as próprias vivências em aparelhos culturais. Eles apenas estão abandonados porque não os ocupamos. Vamos nos apropriar do que já é nosso, nossa própria vida coletiva que está tantas vezes a uma janela de distância, mesmo que a janela seja o Windows apontando para tantas possibilidades.

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