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terça-feira, 5 de julho de 2011

Eunápio ensina a correr riscos. Laíse e Flavinho seguem Romário.

Houve um tempo, há muitos anos, em que Romário tentou ser comentarista de futebol. Diante de um chute de fora da linha de área em uma eliminatória da Copa do Mundo, os demais comentaristas chamaram o jogador de irresponsável. Era um lance difícil, quase impossível. Romário mostrou quem é quando respondeu como pentacampeão: "Vocês estão chamando de irresponsável. Se ele acertasse o chute, estariam chamando de gênio. Sempre preferi chutar".

Eis a vida. Diferente de Fernando Pessoa, sempre conheci quem levasse porrada, quem não fosse campeão em tudo, e esses são aqueles que dão sentido ao tempo. Não pisa em terra firme quem tem medo de enfiar a bota na lama. Nos detalhes, nas esquinas, nos bancos de praça encontramos quem vive assim. Conheçam Laíse e Flavinho. 

Encontraram um senhor cantando em inglês em um posto de gasolina, mesmo sendo um mendigo. Conversando com ele, encontraram um homem que se apresentara como engenheiro, militar reformado, que a família enviaria dinheiro para levá-lo de volta a sua terra, no interior de São Paulo, assim que soubessem onde ele estava. Esbarrando com alguém assim em Maceió, o casal foi atrás dos parentes do seu Eunápio, garimparam as referências dele, tudo em tempo real no blog de Laíse

Talvez, alguém pudesse pensar que eles deveriam ter esperado a conclusão da história para divulgar no blog. Foram três posts infelizes na conclusão, mas cheios de luta. É a luta que nos move na vida, não é a certeza. Toda certeza é apenas o que esperamos dela. Laíse e Flavinho divulgaram cada passo da peregrinação. A família não o queria de volta, ele não era engenheiro, ele não era militar, era dependente de álcool e, nesta condição, fez a família sofrer por décadas. Voltando para prestar contas das desilusões, seu Eunápio dormia no banco de praça e já não queria mais conversa, quando tentaram falar com ele. 

Andamos perdendo a habilidade para correr riscos. Não queremos enfrentar o senso de ridículo, não queremos perder o frágil controle que temos sobre nossas vidas. Porém, toda mudança social apenas vem quando há quem siga possibilidades adiante de probabilidades. Era uma questão de sorte conseguir encontrar a família de seu Eunápio, mas fora uma sorte, diria o casal de meus amigos, encontrá-lo, conhecer alguém por quem pudessem fazer algo, e tentaram. 

Valeu a pena? Volta para Pessoa, como somos todos. Não há lugar para almas pequenas nesta história. 

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3 comentários:

Laise Moreira disse...

Estou emocionada. Mas é uma emoção triste, pois não pude fazer o que pretendia sobre o seu Eunápio. =/

canalmeida disse...

Muito bom o post... Tocou nossos corações sem perder a clareza das palavras.. parabéns!!

Sérgio Coutinho disse...

Obrigado a vocês pelas palavras. É muita responsabilidade descrever o que fazem. Tenho que me esforçar para estar à altura. Abraços.

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