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terça-feira, 21 de junho de 2011

Os blogueiros que os lobos cheiraram

Christopher Hitchens escreveu em sua coluna da semana sobre sua saudade dos escritores que se denominaram, na Inglaterra, aqueles "que os lobos cheiraram". Referia-se à aproximação das tragédias humanas, sem concessões a não ser o contato com a realidade. Ele não precisa sentir falta, apenas escolher melhor por onde passeia on-line.

Na última semana, três atividades ligadas a blogueiros se destacaram, com afinidade com a reflexão de Hitchens. Duas supostas blogueiras sírias foram desmascaradas como sendo homens a milhares de quilômetros dos conflitos armados das personagens. Entrevistadas pela imprensa, uma delas celebrada em uma campanha pelo Twitter, sobrou gente encantada com o caso de uma mulher que dormia em cada dia em uma casa diferente, sempre acompanhada por seu netbook. Quantos milhares caíram em uma história tão falsa, afinal imagino alguém esfomeada e sob risco constante de estupro ou morte se esgueirando atrás de redes wifi. Por que acreditar em algo assim? Porque é confortável. É mais fácil protestar por uma hashtag no Twitter, entrevistar por email, encaminhar fotos de agências oficiais do que ir atrás, correndo o risco de ser cheirado pelos lobos. Infelizmente, já foram tantas as denúncias de casos assim que o sinal é de que se prefere a ilusão acomodada ao risco de uma mordida.

No Brasil, um contraponto para a blogosfera nacional. De um lado, Lula reclamava da imprensa elogiando blogueiros autoproclamados "progressistas". Segundo o ex-presidente, eram formadores de opinião com os quais ele podia contar. Não se sentiram envergonhados por ser reconhecidos em público como bucha de canhão on-line, para reproduzir o que interessasse àquela ala do PT. Na verdade, como foram eles que convidaram Lula ao evento, devem ter se sentido orgulhosos. 

Por outro lado, no sábado um grupo de blogueiros em Alagoas foram visitar os escombros que há um ano se acumulam onde antes eram cidades inteiras do interior alagoano. Enquanto o governo do estado partilha desculpas mal explicadas (já nem se importam mais com a verossimilhança), um grupo levou seus computadores e celulares para tuitar que em um ano nada foi feito de significativo. Visitaram e registraram a situação em Murici, Branquinha, São José da Lage e União dos Palmares e constataram a grande favelização dos municípios. Mais que favelização, bairros inteiros convertidos em acampamentos permanentes, onde as mínimas condições de sobrevivência digna sumiram há muito tempo. Estes, sim, como saúda Hitchens, abriram a boca do lobo de tão perto que chegaram. Com a diferença de que eles que uivam enquanto escrevem. 

O trabalho de campo não pertence às Ciências Sociais, mas a toda atividade escrita que se interesse por partilhar a realidade. É mais cômodo o exercício de ficção, como no caso dos blogueiros sírios, ou apenas concordar entre bajulações com o poder. Mais desagradável, por isso mais digno, é dirigir por horas para ir até onde todos querem esquecer que existe. Parabéns aos amigos que sabem morder.

Alguns posts produzidos por eles:

Laíse Moreira: Um ano depois: Branquinha; Um ano depois: Murici; Um ano depois das chuvas: #sosalagoas


Candice Almeida: A verdade sobre as vítimas das enchentes de 2010 em Alagoas; As cidades, um ano depois



Alexandre Fleming: Desabrigados em Alagoas: um ano de abandono e sofrimento

1 comentários:

Gislaine Migliati disse...

Sergio, simplesmente me emocionei com o teu post! Realista e poético ao mesmo tempo! Parabéns!

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