Translate

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Orgulho hetero e Vergonha humana

"Nos Estados Unidos, vejo homens se abraçando orgulhosos de serem heterossexuais. 
Na Itália, não. Lá, ser heterossexual é normal" (Tom Wolfe).


A resposta homofóbica à parada do orgulho gay é falar em orgulho hetero e criticar gays por heterofobia. Mais patético impossível. O que significa sentir orgulho?



Construir o orgulho de ser negro foi a resposta quando ser negro significava não ser humano, assim como ocorrera com a construção da identidade de gênero, ou como faz milhares de anos como os povos nativos se organizam contra conquistadores. O orgulho é resposta àqueles que nos enfraquecem. Se tem sido assim, então quando aqueles que discriminam respondem ao primeiro gesto de autoestima em nome da diversidade sexual com suposto orgulho reverso, fazem na verdade péssima piada com o que dá identidade aos outros. Mas o inferno sempre são eles, os outros.

Não faltaram aqueles que defenderam cotas para brancos quando se começou a falar em ação afirmativa nos Estados Unidos. Do mesmo modo também piadistas perguntavam quem cozinharia se as mulheres tivessem direito ao voto. Agora, quando alguns apenas querem dizer que não sentem vergonha por amar outros respondem que têm orgulho por odiar. Afinal, a homofobia não os faz dizer "ei, devia ser parada do orgulho humano". Seria hipócrita demais até para o estômago homofóbico. Construímos identidades parciais porque não nos identificamos com a própria humanidade. 

Há um provérbio muçulmano inscrito no Alcorão. Aquele que mata um homem mata a humanidade. Não é exagero nem exercício de metonímia. Aquele que envergonha o próprio filho fará o herdeiro ver em si um espelho daquela vergonha. Pertencemos à mesma espécie mas tudo que une alguns repele com ódio aqueles que não têm por quê se orgulhar de si mesmos.

Nós que estamos na parte pobre da região pobre de um país de povo pobre, nordestinos em Alagoas no Brasil. Vejo muitos adesivos de "orgulho de ser nordestino", como em outros tempos era o "Brasil: ame-o ou deixe-o". Porque identidades assim tão amplas nos permitem sustentar quantos ódios particulares quisermos. O que une é genérico demais para criar compaixão. 

Desafiadora era a proposta de Jesus Cristo. Mais que amar a Deus sobre todas as coisas, entidade que deve ser respeitada e temida à distância, falou em novo mandamento pregando amar ao próximo como a si mesmo. Se não se ama, como ele amou aos  demais. Era uma mensagem humana de orgulho por ser humano, como a saudação tibetana que diz "Deus em mim saúda o que há de Deus em ti", ao se curvar diante de alguém. Os tibetanos foram tomados pelos chineses em nome de uma igualdade comunista e Cristo foi crucificado. Sempre é mais fácil odiar do que se orgulhar do que nos une em paz.

Quanto mais íntima, pessoal, restrita for a prática abominada, mais medo ela causa. Pois será mais próxima de quem não entende, não quer entender, que seja possível viver de várias formas na mesma sociedade e ser igualmente feliz. É fácil tolerar situações abrangentes, abstratas, genéricas, como tantas descritas aqui até agora. Porém, a privacidade assusta. Lembrei de outro exemplo de orgulho.

Em uma das primeiras cenas do filme "X-men: First Class", ainda em exibição nos cinemas, o discurso sempre presente em narrativas quadrinísticas envolvendo mutantes se fez presente muito bem. Charles Xavier dizia para uma moça que ela, com um olho de cada cor, precisava se orgulhar de ser assim, porque na diferença da regra geral dos dois olhos da mesma cor ela tinha algo que lhe dava identidade. Por trás do casal, estava a personagem Raven Darkhölme (Mística), que precisava esconder a pele azul e os cabelos roxos, mudando de forma. Mais tarde, ela se pergunta diante do espelho do banheiro exatamente "Mutante, com orgulho?". Não era o orgulho de ser mutante, mas carregar orgulho. Era ser portadora daquilo não como parte de si mas como ferramenta, ou arma. 

Agora voltamos à parada do orgulho gay. De um lado, aqueles que precisam mostrar que não precisam se esconder por temer quem são. Do outro lado, ao falar em "orgulho hetero" sobra apenas usar essa afirmação como arma, portar um suposto orgulho como resposta ao orgulho gay. Se é como resposta ao outro, mas não para reafirmar quem são, talvez estejam assustados, com medo de deixar de ser hetero, ameaçados por gays. Não nos assustemos sendo heterossexuais, afinal não sei de notícias de que heterossexuais tenham sido assassinados por serem heterossexuais. Entre gays não poderia dizer o mesmo. Nem entre negros, nem pessoas com deficiência e a cada hora, estatisticamente, as mulheres que são mortas por seus parceiros no Brasil. 

Antes de qualquer forma de orgulho, esses falsos debates banhados de intolerância causam vergonha de ser membro da civilização do século XXI. Vencemos tantas doenças, superamos guerras mundiais mas ainda encontramos mil razões para temer e odiar uns aos outros. Se o orgulho não pode se travestir de uma forma de identidade compensatória diante de humilhações públicas, é melhor procurar outro sentimento. Pois, para encerrar com outra citação, como diria Cazuza, se não pudermos ser fortes, que sejamos pelo menos humanos.


1 comentários:

Janja disse...

Vamos colocar um pouco mais de besteira no assunto?
Vou fazer a passeata da humildade hetero!

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...