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segunda-feira, 16 de maio de 2011

O humor que bate em vez de rir

Sobra gente que critique o politicamente correto no humor de hoje. Lembram que Chico Anysio, Trapalhões etc. fizeram carreira em tempos em que podiam fazer piada, aparentemente, com o que bem entendessem, sem patrulhas de qualquer tipo. É difícil não concordar com isso, mas a ausência de limites da época não é a mesma de hoje. Mas por que para criticar um exagerado "humor do bem" é preciso apelar para o que poderia haver de pior?

Não se bate em cachorro morto, diz um ditado simples. Significa que aqueles que não possam se defender nem dizer que a piada não tem graça não deveriam ser objeto delas. Do mesmo modo, se eu rio da desgraça, que o desgraçado ria junto, ou eu estarei rindo duas vezes dele. 

Sob a influência mal interpretada do stand up americano, humoristas brasileiros "da nova geração" recentemente parecem andar testando limites do humor, disputando quem faz a piada de pior gosto e mais sem graça. Um programa de TV com vários deles supostamente imitando autistas não passou do primeiro dia e gerou onda de desconforto por parte de famílias de autistas; a emissora recuou, pediu desculpas e comprometeu-se com campanhas sobre autismo. 

Humoristas que esquecem que Twitter tem gente lendo fizeram piadas com órfãos no Dia das Mães, estupro, com sobreviventes do Holocausto, tudo em menos de um mês. É de se imaginar, pela velocidade do microblog, se eles não precisariam de um exame de consciência já que pensam rápido com frequência em piadas em que batem em quem já apanha na vida.

Falei que a influência estadunidense anda mal interpretada. Por lá, apenas veem essa liberdade irresponsável para ofender os outros por parte de humoristas que façam parte do próprio grupo, sejam eles negros, deficientes, judeus... é mecanismo cultural que desenvolveram por lá para autorizar certos tipos de piadas, como "um de nós pode porque nos entende". Pode soar estranho para nós, mas reforça que não dá para simplesmente simular humor de outro país como álibi para fazer o que bem entende. 

Lendo na última semana à entrevista de um desses humoristas, ele dizia que aqueles que se ofendiam com uma determinada piada contra mulheres morriam de rir de piada seguinte porque não faziam parte do grupo atingido. Outro deles, disse em outra entrevista que "toda piada tem alvo certo, ou não tem graça". Se toda piada tem alvo certo, e ambos vivem de escrever humor, então será que não poderiam escolher com mais compaixão as vítimas, para que sejam pelo menos aqueles que possam rir junto?

Voltando ao começo da mensagem, não lembro daqueles da "velha guarda" fazendo piadas que não fossem recíprocas, entre os participantes do programa, como um diálogo. A TV tem poder. A internet tem poder. Se me concentro a ofender, deve haver algo errado quando tudo que distingue a piada da humilhação alheia é a profissão de quem fala. Qual a diferença entre humilhação e piada de péssimo gosto? Parece ser que quem fala é humorista, então pela liberdade de expressão tudo valeria a pena.

Fico vendo domingo à noite participantes de um programa supostamente humorístico brigando entre si, chamando para duelos, trocando ofensas constrangedoras, mais tarde na internet em entrevista o diretor reconhece que é tudo verdade. A audiência ri não de nonsense, mas da antipatia entre os supostos humoristas.

A ausência de alteridade, de olhar para o outro e se ver ali, parece predominar hoje também no humor. É de se pensar que espécie de piadas estão sendo escolhidas. Não esqueço quando estive no cinema para assistir ao filme Cidade de Deus. A plateia ria por minutos diante de uma das cenas mais dramáticas do filme, um estupro. Nos últimos dias, quase toda uma turma de alunos riu quando falei de crianças de uma favela de Maceió que nunca viram um banheiro na vida. 

Chega-se a uma conclusão: não é no stand up americano que esses humoristas se inspiram, mas em Beavis & Butthead. Importa rir de qualquer coisa, principalmente se for algo desagradável, mesmo que não entenda a piada, desde que alguém sofra. 

Como diria Marcelo Yuka, morre um pouco quem atira. Agora, morre um pouco quem ri por último.


1 comentários:

Luiz Gustavo Santana de Carvalho disse...

Acho q alguns novos humoristas estão passando dos limites mesmo. Mas qual o limite do humor? Será q o humor não está passando por uma transformação? Devemos esperar mesmo humor de 50 anos atrás (Ronald Golias, Chico Anysio, etc). Toda transformação social não causa esse tipo de repúdio? Para reflexão ..

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