Translate

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Gritando, ficaremos roucos e, um dia desses, mudos

Alguém ainda lembra dos gritos de Fernando Gabeira contra Severino Cavalcante na Câmara dos Deputados? Lembro vagamente. Foram gestos cultuados, tanto quanto uma suposta palestra em que o senador Cristovam Buarque teria dado bronca em americanos porque a Amazônia é nossa. Nem mesmo ocorreu, é uma lenda da internet brasileira, mas o que mais encanta é o tom, não o discurso. Agora, há o grito da moda. Uma professora do Rio Grande do Norte, enquadrando deputados estaduais locais às vésperas de uma greve de professsores do estado. Com o título anunciando que ela dá um "cala boca" nos parlamentares, já tem mais de um milhão de visitas no Youtube:




Não é difícil concordar com quase tudo que ela diz. O problema para o que agora escrevo não é de conteúdo, mas nos elogios a ela. Afinal, em seu discurso, extremamente coerente, ela diz a cada salva protocolar de palmas que nada daquilo é novidade para ninguém que está ouvindo. Ou seja, é fadada ao fracasso no que diz. Foi parar no Faustão, todos aplaudiram 10% do PIB para educação, outra proposta razoável, mas o problema está, de novo, no tom.

Afinal, duvido que alguém lembre da nobre vereadora Heloísa Helena quanto ao conteúdo das suas falas eloquentes. O que normalmente está associado a ela é "guerreira", "corajosa", "briguenta", mas não conheço fora de seu partido e da Câmara de Vereadores quem lembre pelo que ela grita. 

De muito maiores proporções do que mais um desabafo pela educação (que logo será superado no Youtube por algum vídeo de gato fumando ou de bebê dançando) ou o estilo de uma senadora (que talvez precise ser revisto, afinal não se saiu nada bem nas últimas eleições), são 5 milhões gritando na Espanha por emprego. 

5 milhões chamam a atenção por gritar nas ruas por algo sem solução nem a curto nem a médio prazo. São jovens, entre seus 20 e 30 anos de idade, que querem emprego, grande parte deles o primeiro emprego. Estão tentando entrar no mercado de trabalho ou cansados de trabalhos temporários sem direitos na crise profunda do Estado de Bem Estar Social para quem nele entra agora.

Em todos esses casos, as manifestações chamam a nossa atenção, mas precisamos parar para pensar: será que somos ouvidos? Será que falar apenas e ser ouvido tão somente por quem já concorda e partilha as mesmas angústias é suficiente? 

A luta política não pode ser reduzida a espetáculos, ou a audiência vai se considerar vitoriosa apenas porque conseguiu uma grande audiência. É assim que, de tempos em tempos, alguém considera um protesto virtual bem sucedido porque entrou nos trending topics do Twitter.

Heloísa não voltou ao Senado. Gabeira não conseguiu ser governador. Cristovam, só falava em Educação, que aparentemente todo eleitor quer reformar, mas preferiram eleger quem mentiu sobre ter Mestrado e Doutorado. Severino Cavalcante é prefeito de algum lugar no interior de Pernambuco, não perde eleição jamais. 

Tudo isso porque quando os gritos passam porque as gargantas cansam, aqueles que falam baixo nos gabinetes de madrugada continuam seu desserviço nacional. Muitas vezes sem nem precisar falar. Com todas as perguntas supostamente ousadas do CQC voltadas aos bandidos de plantão, que entram mudos e saem calados pelos corredores diante dos microfones do programa de TV, poucos deles perderam eleições e o "voto Tiririca" elegeu muitos novos políticos-sem-expressão. Prestei atenção: nenhum deles grita.

Planejamento político exige tempo, paciência, pouca emoção e muita transpiração conhecendo a realidade e juntando gente de modo contínuo por objetivos claros. Sem isso, sempre vai fazer todos felizes imediatamente, mas depois vem ressaca ideológica e garganta seca.


1 comentários:

julio cesar frança soares disse...

Excelente a tua argumentação, li e fiquei pensando que realmente muita gente se emociona em um primeiro momento, festeja e conversa a respeito, até que surja outro assunto, então será esse assunto mais importante que o anterior e aí não lembram sequer o nome ou sobre o que era o assunto antes tão festejado, lamentável mas o povo tem memoria curta, e os grande temas com relevância são deixados de lado, a espera do próximo espetáculo.

Mas acredito que aos poucos isso esta mudando, pois antes talvez nós mesmos estivéssemos no mesmo patamar de pensamentos e atitudes, mas fomos acordados pelos fatos que a cada dia saltam aos nosso olhos, tanto na politica como no dia a dia das nossa cidades.

esperemos que um dias todos acordem para essa realidade.

Julio César

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...